quinta-feira, 21 de maio de 2009

NASCE UM NOVO SOM (Revista O Cruzeiro 1972)

Essa matéria foi originalmente publicada na Revista O Cruzeiro, um tradicional magazine semanal ( numa época Pré Caras, onde o conteúdo era importante!) .Garimpada pelo Sérgio de Carvalho, músico, pesquisador, cineasta e agitador cultural, nos foi "presenteada" justamente no dia em que celebrávamos seu aniversário, na primeira semana de maio.







SÁ, RODRIX & GUARABYRA
Nasce um Novo Som
Revista O Cruzeiro
03 de maio de 1972
Texto de Afrânio Brasil Soares e Fotos de Fernando Seixas




A reunião de três respeitáveis nomes da geração atual num trio – Sá, Rodrix & Guarabyra – está revolucionando nossa música e já se fala no advento de nova etapa, a do Rock Rural. Seu primeiro disco Passado, Presente, Futuro vem sendo amplamente divulgado e já se ensaia nas paradas de sucesso. O trio nasceu da necessidade que eles tinham de dar o tratamento que queriam às suas músicas, fugindo à comercialização fácil. Com o êxito alcançado, provaram que qualidade também vende!

Luiz Carlos Sá, José Rodrix e Gutemberg Guarabyra vinham, vez por outra, acontecendo na música. Ora nos Festivais, como no caso de Guarabyra com a vitória de Margarida, e de Rodrix, com Uma Casa no Campo, ora na regularidade com que tinham suas composições gravadas por cantores consagrados, como Nara, criando canções de Sá – seus nomes eram sempre lembrados em cada safra do ano.
Mas nenhuma explosão ou estouro, com a exceção de Guarabyra, ao vencer o Festival de 67, ocorrera. Em novembro do ano passado, um papo trivial entre os velhos amigos foi o responsável pelo acontecimento do momento – a reunião dos três compositores e cantores num trio.
A idéia era muito antiga, mas nunca vingou. Ela germinou desde os tempos do Gripo Manifesto que se reunia num boteco do Leme, do qual os três faziam parte. Profissionalizando-se, cada um seguiu o seu próprio destino e encaminhava suas músicas pelas vias normais, levando-as aos cantores que por elas se interessavam. Muitas vezes, reunidos, comentavam o tratamento que davam às suas canções, nem sempre do seu agrado. Até que chegou o dia do papo decisivo, na casa do Sá. Foi o ponto de partida para a gravação do LP Presente, Passado, Futuro, que está “estraçalhando” na praça e sendo amplamente divulgado em todos os meios de comunicação.

Sinceridade: a Chave de Tudo
Segundo os artistas, a reunião deles num trio era uma fatalidade. Nos longos e velhos papos, seus gostos se encontravam em todas as discussões e comentários. De posse dos instrumentos, enquanto faziam pesquisas, havia como que uma mágica assimilação do gosto do outro no que concerne à harmonia e em certas ocasiões ocorriam improvisações magníficas. O convívio trabalhava suas vocações afins e eles sentiam que se completavam. Todos já tinham algum nome e eram respeitados entre os da nova geração. Não era necessário criar um título para o conjunto: seriam eles mesmos - Sá, Rodrix & Guarabyra.

A partir do nome do trio usaram de sinceridade em tudo. Nada de artifícios. Fazer e interpretar uma música que venha dos seus sentimentos, esmerar-se na qualidade e ser mais próximos deles mesmos constituiu o resumo de seus mandamentos, ainda que com isso prejudicassem a comercialização.
- “Não visamos ganhar dinheiro, mas fazer o que gostamos “(Guarabyra)
-“ A verdade porém, é que nosso público musical evoluiu muito nos últimos tempos e a aceitação de Passado, Presente, Futuro é a prova inconteste disso “( Sá).
-“Quando o disco saiu vários cantores meus amigos me perguntaram por que não lhes ofereci determinada música. Ofereci-a, sim, você é que não descobriu beleza nela e nem ao menos se lembra – é o comentário de Rodrix ao se referir à canção Hoje Ainda è Dia de Rock, uma das componentes do LP.

O Já Famoso Rock Rural

A Expressão Rock Rural popularizou-se rápido, é como vem sendo cognominada a música criada pelos três, onde a mesclagem do tratamento harmônico com a participação de instrumentos vários fez surgir algo de singular na evolução da nossa música. As letras são simples,mas não simplórias e a singeleza das imagens procede da pureza dos sentimentos dos artistas, todos vivamente impregnados do amor à terra e à natureza. Ligada a esse amor existe a experiência musical para burilar e purificar o som, enriquecido pelos recursos da nova técnica.

-“Não temos nenhum preconceito contra o que há de velho ou novo. Nosso compromisso é com a música. Não desprezamos a melodia, como damos enorme valor à harmonia e ao ritmo. Utilizamos a grande orquestra, quando o número exige, como podemos nos limitar a um só violão, se for ocaso. A liberdade de criação é muito importante para o nosso trabalho” (Rodrix)

Não há regularidade na interpretação das 11 canções do LP. Muito ao contrário, a característica é a diversificação do tratamento das músicas, onde os artistas se alternam nos instrumentos e na sua posição de canto. Aliás, está especificado ligeiramente na contracapa do disco. Tudo isso prova a identificação entre eles o que resultou num magnífico trabalho.
VALEU A PENA

Sá, Rodrix & Guarabyra ao se reunirem em trio, já não são apensa Sá, Rodrix e Guarabyra isoladamente. Se na unidade, já eram respeitados, conjuminados formam uma força na área em que transitam. O primeiro resultado aí está: o disco sendo vendido a rodo em todas as principais praças do país e muitas de suas músicas, despercebidas pelos colegas anteriormente, são agora solicitadas para gravação.
Na crista da onda como se encontram, as solicitações já começam e suas aparições na TV já foram de imenso agrado. Nestes dias está sendo vendido um compacto do Trio que traz dois hinos evangélicos estilizado em ritmo popular, arranjo que fez grande sucesso quando lançado no programa Flávio Cavalcanti. Já cogitam um show em maio.
Sem dúvida aguardam o conseqüente sucesso financeiro, embora o dinheiro não seja o essencial para eles, como declararam. A importância do dinheiro que virá está diretamente ligada ao investimento que fizeram para lançar-se no trabalho do LP, pois abandonaram todos os outros compromissos profissionais durante 3 meses e para subsistirem tiveram ate que vender seus automóveis.
Mas valeu a pena o sacrifício. Presente, Passado e Futuro, além de seu excelente tratamento e sua esmerada qualidade, ainda terá o valor de relíquia para os colecionadores de amanhã: foi o primeiro disco do famoso conjunto SÁ,RODRIX & GUARABYRA.


2 comentários:

Ana Paula disse...

Sensacional! Até emociona
:)

Marlene disse...

Recebemos esse presente do Sérgio no dia 06/05/2009, quase exatamente 37 anos após a matéria ter sido escrita e é impressionante como os três se mantiveram fiéis às suas ideologias, valores e determinação de fazer arte com sensibilidade e qualidade, mesmo em detrimento da parte comercial.
Essa reportagem só confirma a coerência dos três e aumenta a admiração e respeito que tenho por eles.
Muita Luz e Sucesso prá Sá, Rodrix e Guarabyra!