terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Show Sá & Guarabyra em Curitiba 22/11





“Show avisado em cima da hora, pouco divulgado. Certamente haverá poucas pessoas!” E assegurou uma pequena platéia convidando amigos e parentes, todos fãs.
Acordou mais cedo, preparou o bolo com carinho, com carinho também havia comprado uma caixa para colocá-lo e fez um lindo presente do famoso ( e desejado) bolo de fubá com recheio surpresa de goiabada cascão. Com a caixa nas mãos seguiu até o SESI, próximo à sua casa. Dirigiu-se até os camarins, onde entregou o presente à alguém da produção: “Por favor, entregue ao Sá & Guarabyra” Desejou ter dito “Aos meus meninos!” e foi pro seu lugar.
Surpresa: o show lotou! De carinhosos e sedentos fãs da dupla, que cantaram juntos, aplaudiram e vibraram com os causos do Sá!
Após o show teve coragem de ir até os camarins, afinal precisava saber se eles haviam recebido o bolo. E sim, lá estavam de braços abertos aguardando a “Dona do Bolo” que eles levariam para comer no hotel: PIH! Fotos, beijos, conversas, abraços, agradecimentos mútuos, afinal eles já aguardavam a sua presença! E de todos amigos que acorreram aos camarins pós show!
Curitiba, dessa vez, teve gosto de bolo de milho com goiabada cascão, o bolo da Pih!

Sá, Guarabyra, PI Morais e amigos.

Sá, Guarabyra e o autor dessas fotos, Toninho Matos.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Sá & Guarabyra - LET IT BE


Sá & Guarabyra regravaram Let It Be - balada do álbum homônimo dos Beatles, lançado em 1970 - para o disco-tributo Beatles 70, produzido por Marcelo Fróes para seu selo Discobertas. O CD vai chegar às lojas em abril de 2010 para celebrar os 40 anos do lançamento do derradeiro álbum dos Fab Four (Let It Be, a rigor, foi gravado antes de Abbey Road, em 1969, mas foi lançado depois, encerrando assim a discografia oficial do grupo). A ideia da dupla era reviver Let It Be na companhia de Zé Rodrix (1947 - 2009), mas a morte do compositor de Casa no Campo - em 22 de maio de 2009 - impediu a reunião do trio Sá, Rodrix & Guarabyra.
*******************************
HOJE TEM show no Rio : participação especial da dupla no show de Lula Ribeiro, às 19 h, no Centro Cultural da Justiça Eleitoral, grátis! (Ingressos antecipados do meio dia às 14 h!)
Centro Cultural da Justiça Eleitoral
19h
Rua Primeiro de Março, 42
Rio de Janeiro

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Hoje: Pensamento de Luz no Aniversário do Zé Rodrix


Hoje escutem uma canção do Zé, releiam alguma crônica, vejam alguma foto, riam com alguma irreverência do Mestre, comam ( ou bebam) algo muito especial que invoque sua memória, e principalmente, dirijam um pensamento de luz ao Zé Rodrix no dia do seu aniversário!!
Vale até chorar, desde que termine tudo numa gargalhada , daquelas abertas, bem ao gosto do Zé!
PARABÉNS, ZÉ RODRIX!!!

*****************************************
Show AS CANÇÕES - VOCAL BRASILEIRÃO canta ZÉ RODRIX
Curitiba - PR
Dia 28 de novembro de 2009, 20h (sábado)
Dia 29 de novembro de 2009, 19h (domingo)
Local: Auditório Poty Lazzarotto do Museu Oscar Niemeyer
Rua Marechal Hermes, 999 – Centro Cívico
Ingressos – R$ 10,00 ou R$ 5,00 (1 kg de alimento não perecível. Promoção não cumulativa)Classificação livre - Informações: 3321-2855

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

domingo, 15 de novembro de 2009

ESPANHOLA, versão Rossa Nova

Finalmente publico essa versão, tão linda, com esses meninos não menos lindos, de sorrisos largos e fraternais, do Rossa Nova.
Juka, Bezão e Xamã deram um toque muito particular, fizeram uma releitura que ao ouvir a primeira vez me fez renovar meus votos de eterna paixão pela canção de Sá & Guarabyra, incluindo uma frase de " Can't help falling in love" ( Não posso evitar de me apaixonar), famosa na voz de Elvis Presley.
Quem pode?
Um mês após o falecimento do Zé Rodrix, recebi essa canção via email, do Juka. Mas andei tão triste, como todos...
Com o lançamento do DVD do Rossa Nova, grupo esse a quem o Zé Rodrix nutria paixão, meu ânimo voltou. Novos ares, novas vozes, esperanças renovadas. Não é à toa que seu primeiro trabalho trazia Sementes de Ipê para plantar. "Vamos espalhar as sementes e desfrutar dessa ROSSA NOVA!"


ESPANHOLA, com ROSSA NOVA


quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Luiz Carlos Sá: Belorizontino, Sô!

Todos reunidos: O homenageado, Vereador Anselmo, amigos e o filho Tomaz Sá.

Thadeu Franco



Descrição de Tavito sobre a homenagem recebida por Luiz Carlos Sá, na Câmara de Vereadores de Belo Horizonte, ocasião que lhe foi outorgado o Título de Cidadão Belorizontino:
Tavito

"(...)foi divertido pra dedéu. Foi o pessoal do 14 Bis, o Flavim Venturini, o Tadeu Franco e eu. Além de nós, a filharada. Tutu cantou uma parceria com o pai, linda. Maria Valéria filmou, e nós também cantamos várias homenagens pro velho, com corais abertos e os corações contentes, tocados todos pela amizade-vida-int...eira que nos une; foi emocionante. O próprio Sá fechou a cantoria com a infalível "Sobradinho". Depois, comidinhas de boteco e cerveja gelada. Foi bárbaro. Beijos / Tav"



Estiveram presentes amigos, parentes, sua esposa, todos os filhos e os fãs...entre os quais , confessou durante seu discurso, o Vereador Anselmo José Domingos, autor da homenagem.
Tomaz Sá - Filho

Depois dos discursos, cantorias (Todos cantaram algumas parcerias com o homenageado e Tavito foi instado a cantar Rua Ramalhete, acompanhado por todos, com profunda emoção!), um farto coquetel composto por petiscos típicamente mineiros foi oferecido aos convidados .
14 Bis completo

Claudio Venturini

Mal posso aguardar a hora que o Sá receba o título de Cidadão Mineiro !!

Fotos oficiais do site do Vereador Anselmo José Domingos

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Luiz Carlos Sá: Cidadão Belorizontino

Há meses atrás chegou a notícia: Luiz Carlos Sá receberia o Título de Cidadão Belorizontino Honorário, por recomendação do seu amigo e parceiro, o também cantor, Thadeu Franco.
Não pude deixar de pensar na ironia: será o primeiro "mineiro" de um trio que todos pensam ter nascido em Minas, que canta Minas. Luiz Carlos Sá, carioquíssimo, tem um filho, um amor e o coração em Minas, além de seu endereço fiscal!
Parabéns à iniciativa do Vereador Anselmo José Domingos!!

E convidamos todos os fãs residentes em BH à comparecer à Sessão Especial onde será outorgado o Título de Cidadão Belorizontino! Vamos encher as galerias da Câmara!

Câmara Municipal de Belo Horizonte
Av. dos Andradas, 3.100 - Santa Efigênia - Belo Horizonte - MG - CEP:30260-900
Novo Telefone geral: (31) 3555-1122 -Fax: (31) 3555-1460

sábado, 17 de outubro de 2009

Filha de Zé Rodrix e atriz de musicais, Marya Bravo canta suas próprias dores de amor no CD de estreia



"Água demais por ti"

Filha de Lizzie Bravo - a fã de apenas 16 anos que foi para Londres tentar algum contato com os Beatles e, após virar noites em frente à gravadora, acabou participando, em 1968, do coro na faixa "Across the universe", do clássico disco "Abbey Road" - com o papa do rock rural, Zé Rodrix, Marya Bravo ganhou seu primeiro cachê como cantora quando tinha apenas 4 anos. Era a voz da menininha do comercial de Cremogema que povoa a mente de toda uma geração. Mas a criança que esquecia a bola e a boneca quando sentia o cheiro do mingau só não abandonou a sua vocação para cantar. Voz presente em dezenas de musicais, ex-backing vocal de Marisa Monte, ela agora lança seu primeiro CD, "Água demais por ti", que será lançado no dia 28, no Cinemathèque.

O disco, que traz a alma roqueira de Marya, traz letras da artista de um momento de ruptura, de separação, que acabou conceituando o trabalho desde a arte do disco - na capa ela aparece como uma rainha decadente. Mas Marya vive um momento completamente diferente e, ao contrário do que possa parecer em suas canções, é uma figura para lá de alegre.

- As minhas músicas autorais têm essa temática de relacionamentos frustrados, da agonia dos amores mal resolvidos. E eu acabei montando o repertório seguindo isso. A "Imitação da vida", do (sambista baiano) Batatinha, foi o Mauro Diniz, com quem trabalhei na turnê de "Memórias, crônicas e declarações de amor", quem me mostrou. "Pra você gostar de mim", do Vital Farias, me foi apresentada pelo pai do Nobru, guitarrista que toca comigo - conta Marya, que gravou músicas de seus contemporâneos, como "Clássica", da banda Benflos, e "Relacionamento saudável", da Rockz. - Essa foi a última a entrar no disco e reflete o ótimo momento que vivo.

Marya Bravo não nega a influência de seu pai e sua mãe em seu trabalho.

- Cresci morando com a minha mãe, que até hoje ouve música o tempo inteiro. Então me aplicou Ney Matogrosso, Secos & Molhados, Mutantes, que frequentavam nossa casa. E a regravação de "Fala", do Secos, é uma homenagem dupla, pois meu pai fez o arranjo e tocou sintetizador na faixa. Também escuto muito os primeiros discos dele, os do Som Imaginário, e sinto que o meu disco puxa para esta época, para os anos 70. Isso fica com a gente, por mais que ouçamos outras coisas. E eu ouço de tudo.

A homenagem ao pai, que morreu em maio deste ano, traz uma ponta de tristeza:

- O falecimento dele me deixou muito triste. Era um torcedor. Não tinha contado para ele que o disco estava saindo porque queria fazer uma surpresa.

Marya Bravo não fez apenas o comercial de Cremogema quando criança. Como a mãe fez muitos jingles, ela era sempre solicitada quando precisavam de uma voz infantil. Mas a profissionalização começou mesmo quando ela se mudou para Nova York com a mãe. Paralelamente aos estudos formais, ela, que sempre sonhou em ser atriz, entrou para uma escola profissionalizante de teatro musical, onde juntou suas duas vocações: o canto e o trabalho de atriz.

- Fiz muitos trabalhos nos Estados Unidos e na Europa, até que um dia vim para cá de férias e fiz um teste para um musical. Não parei mais e fiquei por aqui.

Desde a sua volta, ela participou de espetáculos como "Cristal Bacharach", "Lado a lado com Sondheim", "7", foi Ângela Maria em "Cauby! Cauby!" e, para alegria da mãe, integrou o elenco de "Beatles num céu de diamantes".

O disco de Marya começou a ser pensado há nove anos, desde que foi trabalhar com Marisa Monte.

- Ali comecei a tocar violão e me interessei por esse meio, pelo qual eu não tinha navegado. Recebi muito apoio do Mauro Diniz, do Dadi e da Marisa, que sempre foi muito generosa. Em 2004 surgiu a oportunidade de um show, e, na hora de montar a banda, resolvi chamar pessoas de meios diferentes. O Carlos Trilha, eu conhecia da Marisa, o Cesinha era o baterista dos shows em que cantei com o Davi Moraes, e o guitarrista Nobru Pederneiras, que é meu cunhado, trouxe o Daniel, o baixista.

O resultado ficou tão satisfatório que a banda é a que toca no disco, por sinal, sem participações.

- Resolvemos que faríamos tudo no nosso tempo, e funcionou. Muitas vezes nos encontrávamos aos sábados e falávamos de música. O resultado, eu nem sei definir. Virou um rock melódico meio pesado.

Mas Marya, depois desse processo, se sente mais atriz ou cantora?

- Sou uma atriz de musical. Nunca fiz outra coisa e é difícil definir. Adoro interpretar canções no teatro, adoro ser dirigida e cantar como uma personagem. Mas cantar músicas minhas, extremamente pessoais, é muito forte. E essa minha formação dá um caldo nessa história.

http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2009/10/16/filha-de-ze-rodrix-atriz-de-musicais-marya-bravo-canta-suas-proprias-dores-de-amor-no-cd-de-estreia-768084054.asp

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

1º Acto

Iº ACTO foi o primeiro disco lançado por Zé Rodrix ao se separar do Trio (73).
O tema escolhido foi muito apropriado para quem, como ele, era também ator e estava estreando na carreira solo, após tantos anos atuando coletivamente ( Momento 4uatro, Som Imaginário e o Trio).

Regis Tadeu, crítico musical e colunista do Yahoo, acabou de citá-lo numa lista que reúne os “10 melhores discos que quase ninguém conhece”! :

“3) I ACTO - Zé Rodrix


Este foi o primeiro disco que o genial e recentemente falecido Zé Rodrix lançou logo depois que saiu do ótimo e experimental grupo Som Imaginário, inaugurando uma carreira-solo brilhante e pouco valorizada. De cara, ele mostrou que sabia misturar como ninguém ótimos rocks ("Casca de Caracol", "Eu Não Quero", "Essas Coisas Acontecem Sempre", "Cadilac 52") e belas baladas ("Coisas Pequenas", "Quando Você Ficar Velho") e até mesmo um samba ("Xamego da Nega"). Infelizmente, não consegui achar um clipe de alguma música deste disco, mas é um trabalho recomendadíssimo para quem não acredita que houve vida inteligente na música brasileira nos anos 70.”
(matéria completa no link acima )

Matéria da Revista POP(1974) sobre o lançamento paulista de Iº ACTO ,

garimpada por Marlene Alves.

(clique sobre a foto para ler o texto)

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Guarabyra no Guia de Vinhos da 4 Rodas


A nova edição do Guia de Vinhos da Revista 4 Rodas, além de uma edição impecável, apresenta uma crônica do Gutemberg Guarabyra chamada "A Evolução do nosso paladar" resumindo os últimos 25 anos, desde a entrada dos importados e a consequente popularização do ( saudável) hábito de degustar um bom vinho!
Guarabyra, além de compositor, escritor, poeta, entre mil atividades é também gourmand, restauranteur e um conhecedor de vinhos.


À Votre Santé!

Clique sobre a figura para ler o texto

(Em breve a transcrição completa do artigo)

domingo, 12 de julho de 2009

Último Adeus ao Zé Rodrix


Gostaria que você informasse a todos os amigos queridos que as cinzas do Zé foram lançadas ontem dia 11 /7 às 12 horas na Baia de São Vicente da Ponte Pênsil , um lugar que ele sempre dizia pro Soneka que gostaria de morar lá. Chegou a andar comigo pela ilha Porchat, e por alguns canto de lá pra escolher um apartamento pra que quando ficasse mais velho pudesse andar pela praia e escrever somente.

O dia ontem chorou pelo Zé, choveu o tempo inteiro, sem parar um minuto sequer, mas assim acho que encerramos um ciclo, um tempo de dores, agora acho que temos como dever lembrar dele com a alegria e deixar que ele se expanda, se espalhe por todo o universo, pelas águas da sabedoria, que ele banhe os continentes, que ele , como a água, infiltre os corações com a sua ética inabalável, seu código moral estrito, sua memória prodigiosa e seu amor por todos os amigos. Ele agora pertence ao mundo que tanto queria conhecer, estar pelos mares, vai poder estar em todos os lugares como era a impressão que se tinha dele, um homem onipresente pela sua grandeza de espirito.Vá em paz meu amor, você já não nos pertence, você agora faz parte do universo.



por Júlia Rodrix




Para reunir todos textos do Zé Rodrix, todas a memórias, letras, divulgar as canções, vídeos, fotos da carreira e da vida do Zé Rodrix estamos construindo

o blog ZÉ RODRIX.

Assim, simples como o Zé e cheio de informação para os fãs e amigos matarem as saudades!

http://zerodrix.blogspot.com

sexta-feira, 10 de julho de 2009

De volta à estrada - matéria do Estado de Minas



Sá & Guarabyra retomam o trabalho da dupla depois da morte de Zé Rodrix. Luiz Carlos Sá, hoje morador de Belo Horizonte, faz balanço da contribuição do trio para a música brasileira
Ailton Magioli


foto: Beto Magalhães


Luiz Carlos Sá, na Praça Nova York, no Bairro Sion, lugar que escolheu para morar e que, para ele, lembra Barcelona


A decisão, tomada em pleno velório do amigo e parceiro Zé Rodrix, morto de infarto do miocárdio, em 21 de maio, aos 61 anos, foi imediata. "Quando todos se mostravam preocupados com o choque e abatimento que havíamos sofrido, eu e o Gute (Guttemberg Guarabyra, também de 61 anos) descemos para conversar e chegamos à conclusão de que iríamos voltar com tudo. Afinal, seria desrespeito à memória do Zé e à própria carreira, que não tem vontade e perspectiva de encerrar", descreve Luiz Carlos Sá, de 63 anos, o terceiro personagem de um capítulo importante da música vocal brasileira, que teve início em 1971, no apartamento da Rua Alberto de Campos, 111, de Ipanema, no Rio, onde nasceu o trio Sá, Rodrix e Guarabyra.

Memória viva da música popular desde que transformou o denominado rock rural em verbete obrigatório do cancioneiro brasileiro, o trio, que durou 12 anos, em dois momentos, teve a carreira interrompida em 1974, com a saída de Zé Rodrix para seguir trajetória solo, voltando à estrada novamente em 2001, até sofrer “desagregação forçada”, como recorda Sá, com a morte repentina de Zé. Em meio a tudo, no entanto, há 26 anos sobrevive a dupla Sá & Guarabyra, que já fez cinco shows depois da morte do amigo e parceiro. A reação, de certa forma, foi rápida, como reconhece Luiz Carlos Sá, mas a emoção de cantar sem o amigo Zé Rodrix, depois de oito anos de retorno do trio, tem sido difícil de domar. “Os primeiros shows foram dramáticos, principalmente o que fizemos em Santo André (SP), onde montamos um power point com fotografias dele”, recorda Sá, contabilizando pelo menos 1,2 mil pessoas na apresentação, muitas das quais chorando a ausência de Zé.

“Não dá para escapar da emoção, às vezes é preciso exorcizá-la.” Sá explica que, embora a dupla tenha feito shows inclusive durante o período da retomada do trio, a convivência entre os três era intensa. "O Zé agregava algo que transformava a identidade da gente", diz, visivelmente emocionado, Luiz Carlos Sá. Para ele, o som do trio era muito mais pesado do que o da dupla. "A partir de agora, Sá & Guarabyra serão diferentes”, anuncia ele. Nos últimos tempos, de acordo com Sá, os contatos do trio – incluindo as composições – eram feitos mais via internet, principalmente por meio do skype, já que cada um morava em cidade diferente.

"Toda e qualquer decisão e conclusão, no entanto, eram tiradas juntos: o que fazer, o que não fazer”, ressalta Sá. Ele garante que não será a morte de Zé que vai tirá-lo do convívio deles. “A energia que o Zé deixou vai ficar para sempre conosco", afirma. Apesar de ele e o amigo Guarabyra ainda não terem voltado a compor, em breve vão retomar a parceria em dupla. "Depois do CD inédito do trio (Amanhã, com lançamento do selo Roupa Nova Music, a ser agendado ainda neste semestre), imediatamente vamos gravar o da dupla", antecipa Sá. Para ele, o público tem reagido com emoção redobrada nos shows. “Parece que querem empurrar a gente. É como se dissessem para a gente não desanimar, não parar.”


Nova casa

A escolha da Praça Nova York, do Bairro Sion, para o encontro com a reportagem, foi do próprio Luiz Carlos Sá, que, há três anos, trocou o Rio por Belo Horizonte. A duas quadras dali, ele e a mulher, Verlaine, curtem o filho mais novo do casal, que, curiosamente, tem a mesma idade da primeira neta do artista, de um ano e meio. Pai de mais quatro filhos de outros casamentos, Sá diz que os amigos se assustaram quando ele decidiu largar a cidade de origem. “Por que não?”, reagiu. “Tenho 50 anos de praia, além de adorar ser turista no Rio”, justificou em um dos poucos momentos de descontração. Como gosta de salientar, toda metrópole tem virtudes e defeitos, mas em Belo Horizonte ele encontrou paixões como a praça do Sion, que o remete ao Parque Güell, da Espanha, onde esteve ao lado da mulher, conferindo a beleza da arte de Antoni Gaudí. Os muros da praça belo-horizontina, decorados com cacos coloridos de cerâmica e vidro, remetem aos mosaicos de cores feitos pelo mestre espanhol, no famoso parque de Barcelona.


Raízes de um estilo

Foi a partir de uma brincadeira com Guarabyra, residente em São Paulo, que teria arrumado uma namorada em Ubatuba, que Zé Rodrix fez a letra da canção, de autoria do trio, que batiza o disco inédito de Sá, Rodrix & Guarabyra. “Amanhã, ela disse que ia chegar, amanhã/ Não chegou e avisou que só vinha na outra manhã/ Esperei, veio o sol, veio a tarde e depois/ Quando a noite chegou me deitei/ Não dormi, nem sonhei, esperei o amanhã”, dizem os versos, que deixaram a dupla assustada diante do aspecto premonitório da letra.

“O Zé gastou a pilha. Ele era um dínamo musical, vivia fazendo alguma coisa. Eu, às vezes, me cansava só de ficar do lado dele”, conta, sem culpa, Luiz Carlos Sá. Ele reconhece que o amigo puxava a dupla, que é meio paradona. “Extremamente musical, culto e polêmico, o Zé às vezes falava até o que não devia. Mas era o jeito dele. Nada dura tanto tempo por acaso. Alguma liga nos unia neste tempo”, acredita ele, salientando que, apesar de um estar sempre metendo o dedo no trabalho do outro (todos três faziam letra e música, simultaneamente), primou-se sempre pelo consenso. A volta do trio foi tão produtiva, revela Sá, que, além das 11 canções gravadas no disco, ficaram pelo menos mais 10 inéditas.

Oriundos de grupos históricos, Guarabyra (Manifesto) e Zé Rodrix (Momento 4, depois do Som Imaginário), ao lado de Sá, fizeram história ao criar uma marca no vocal brasileiro. “Não sei se o rock rural é uma marca ou estigma, já que às vezes as pessoas fazem uma mistura que não tem nada a ver com a gente”, detecta o artista. Conforme Sá, a ideia original foi juntar ritmos do interior brasileiro à influência urbano-roqueira dos três, que hoje encontra ecos em grupos como Vanguart e Roça Nova, de São Paulo. “Até pelas características, somos o primeiro trio, e depois dupla, não sertanejo de que se tem notícia”, conclui Luiz Carlos Sá.


DISCOGRAFIA

SÁ, RODRIX & GUARABYRA

Passado, presente, futuro, 1972
Terra, 1973
Sá, Rodrix & Guarabyra, 1983
O rock rural de Sá, Rodrix & Guarabyra, 1988
Portfólio, 1994
2 em 1 – Sá, Rodrix & Guarabyra, 1996
Outra vez na estrada – Ao vivo, 2001

SÁ & GUARABYRA

Nunca, 1974
Cadernos de viagem, 1975
Pirão de peixe com pimenta, 1977
Quatro, 1979
10 anos juntos – Ao vivo, 1983
O paraíso agora, 1984
Harmonia, 1985
Cartas, canções e palavras, 1987
15 anos juntos, 1988
Vamos por aí, 1990
Sucessos de Sá & Guarabyra, 1991
Sá & Guarabyra, 1993
O melhor de Sá & Guarabyra, 1994
Sá & Guarabyra – Série Aplauso, 1996
Rio-Bahia, 1997
O essencial de Sá & Guarabyra, 1999
Sá & Guarabyra e Orquestra Sinfônica Americana – Ao vivo, 1999
Sucessos em dobro – Sá & Guarabyra, 2000

(*) Inclui coletâneas e exclui trilhas
de novelas e solos de cada um, à exceção
de Luiz Carlos Sá, que não gravou
um disco sozinho.


Estado de Minas - dia 10/7/ 2009

Agradecimento à Maria Valéria Bethonico, pela colaboração!

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Os Garotos de Ipanema - Luiz Carlos Sá


Leblon, primavera de 71. Tiro os quadros da parede, junto meus discos, guardo meus livros. Meu primeiro casamento estava acabado, eu estava sendo despejado e ainda por cima passava por uma dolorosíssima crise de cálculos renais. Tinha pensado em ir pra casa de Torquato Neto e Ana, mas minha ex-mulher se adiantara e já estava lá. Eu ficara sem ter pra onde ir a não ser a casa de papai e mamãe, o que me parecia o último fracasso. Mary, a empregada, sempre descolava um almoço, que mais tarde vim a descobrir ser saído das mãos da empregada do vizinho. Isso explicava também os “milagres” que andavam acontecendo lá em casa: eram semanas de um mesmo e misteriosamente duradouro quilo de arroz e feijão até que eu conseguisse algum trocado, que conseguia nas mágicas mãos de Mary a mesma longevidade misteriosa dos anteriores!

Na véspera, Torquato me emprestara uma graninha pra gasolina da mudança. Eu tinha como último patrimônio um jipinho Gurgel, que me recusava a vender, e toda minha mudança cabia nele.
Naqueles tempos em que eu andava meio pirado - e duro - minha única diversão era caminhar pela praia, do Leblon ao Arpoador, pensando na vida e tentando manter minha sanidade em dia. Mas naquela exata manhã resolvi pegar o Gurgel e sair dando uma bola por Ipanema. Quando passava ali pela Praça da Paz, ouvi me chamarem. Olhei pra calçada e dei de cara com o Guarabyra. O Guarabyra!

— Você tá indo pra onde? – perguntou ele, como se percebesse a confusão dos meus pensamentos.
Falei das minhas desgraças e ele, como sempre, riu muito delas. A gente se conhecia desde 66, mas já havia algum tempo que não nos encontrávamos. Fomos andando pela praça e bastou um chopinho rápido pra velha amizade se colocar em dia.
— Escuta, Sá: você se lembra do Zé Trajano, jornalista, irmão da Maria, cantora?
— Claro.
— Pois é. Eu estou dividindo um apartamento com ele, a mulher dele e um outro jornalista, o Toninho Neves. Tem um quarto pro casal, outro pro Toninho e outro pra mim. Leva uma cama pro meu quarto e vai se virando por lá até as coisas mudarem.

Não tive dúvidas em aceitar a oferta. A voltar pra casa dos pais, na Tijuca, distante do meio musical, era evidente que eu preferia ficar no meio das coisas mais interessantes que com certeza rolariam nesse apartamento. No dia seguinte, bem cedo, despedi-me de Mary, desolado, mas ao mesmo tempo animado pela perspectiva de um recomeço. Pra dizer a verdade, parti meio que com medo: depois de alguns meses saindo de casa apenas para trabalhar - eu era programador da rádio JB e editava um caderno semanal de música no Correio da Manhã - não me achava muito capaz de ser boa companhia pra ninguém. Eu dissera isso pro Guarabyra, mas ele insistira no convite, dizendo que todo mundo acharia ótima minha mudança pra lá... Minha “mudança”! Caixotes de livros e discos, malas de roupas e uma cama incrivelmente estreita, emprestada por minha ex-cunhada. Uma cama à prova de sexo, em cima da qual era impossível rolar alguma coisa além de um sono precário e meio de lado.

E lá me fui, Gurgel lotado e sem capota, rumo à Rua Alberto de Campos 111, apto. 1, um térreo antigo e espaçoso no miolo de uma Ipanema que naquela época ainda era um paraíso de malas-belas-artes.
Guarabyra e Toninho estavam na janela quando cheguei e tiveram ataques de risos com a finura da cama e a minha dificuldade em carregar a tralha mal arrumada:
— Cara, o que é que você faz com essa cama?
— Trouxe os pregos?
— Se você precisar dormir de bruços, pode usar a minha!
Tive que começar sozinho a colocar as coisas na casa, já que eles não conseguiam ficar em pé de tanto rir... Afinal, a cama foi entronizada no quarto do Guarabyra como uma imagem sagrada.


A vida no nosso esconderijo corria mais ou menos macia. Festas sempre que possível e tudo sempre que impossível. Guarabyra tinha um fusca e trabalhava na Globo, o que queria dizer que transporte e alimentação não eram problema. Eu passara a depender exclusivamente dele e do Toninho, já que resolvera perseguir a ilusória carreira musical e largara tanto a rádio quanto o jornal, começando um trabalho musical com meu amigo Zé Rodrix, que acabara de estourar com “Casa no Campo”. Pra mim e pro Zé o apê da Alberto de Campos revelou-se um lugar ideal pra ensaiar e compor. Com o tempo, a freqüência dos amigos aumentou, acho que graças a três coisas: a localização estratégica, entre a Farme de Amoedo e a então Montenegro, hoje Vinícius de Moraes, no coração do bochincho e ao mesmo tempo fora dele; nossa perene boa vontade em receber todos os tipos de intelectuais, aproveitadores, grandes papos, tietes, cineastas de van- e reta-guarda, artistas plásticos e metálicos, jovens atrizes e loucos de todo o gênero que grassavam no bairro por essa época; e finalmente pelo simples fato de que estávamos invariavelmente ou tocando e cantando nossas músicas ou ouvindo Leon Russel à toda altura que duas fantásticas caixas de concreto Wharfdale com falantes de 18 polegadas podiam agüentar. E - me acredite - elas agüentavam tudo! Aliás, nem mesmo o Trajano sabia como aquelas caixas tinham ido parar ali. Elas simplesmente faziam parte da locação.


Guarabyra era produtor artístico do Festival Internacional, mas apoiou o protesto dos compositores classificados da parte nacional contra a maligna censura que regia manu militari a MPB da época. Ficou em situação crítica e demitiu-se, o que deixou nossa renda doméstica seriamente enfraquecida e sem o principal sustentáculo da esbórnia diária. Toninho Neves assumiu solidária e imediatamente a condição de chefe da casa, uma vez que Trajano e sua mulher tinham tido o bom senso de mudar-se pra longe dali. Toninho saía cedo pro jornal e deixava o “das compras” com a Marlene, nossa fiel funcionária. Apesar da dureza, tínhamos dois carros parados na porta: o fusca do Guarabyra, que dias mais tarde eu destruiria numa esquina tijucana, e o meu bugue Gurgel, única paixão e orgulho material que me havia sobrado além de uma velha craviola de 12 cordas e da esbagaçada guitarra Sonic Giannini. O Gurgel! Branco, conversível, com uma frente de meter medo e um styling especial, ele tinha suspensão rebaixada, pneus largos e motor 1500. Era um monstrinho simpático que sempre atraía polícia pra cima da gente. Com a nossa cara, em 71, isso já era três quartos de fria.
Nossa casa tinha muito de happy hour. Todo fim de tarde pintava algum desgarrado por lá. Por exemplo, Júlio Hungria, crítico (ele recusava essa qualificação) do JB. Volta e meia lá chegava o Júlio, depois de um dia de redação, com cara de redação, roupa de redação e fisionomia redacional. Sentávamos eu, o Rodrix e o Guarabyra com ele e Máriozinho Rocha, outro habituê do nosso muquifo–chic, e nos enleávamos em música. Eles nos ouviam cantar nossas primeiras parcerias e falavam, entusiasmados, que éramos um trio e assim devíamos seguir. No começo da noite, Toninho trazia as últimas do dia e logo depois chegavam nossas meninas-candidatas-a-atriz: Leila Cravo, Bebel, Olguinha e Denise Dumont, falando dos últimos shows, de peças infantis que faziam e dos problemas com os diretores, começando suas carreiras com aquele brilho de I wanna be a star nos olhos. Era gostoso vê-las falar com incessante interesse nas mais abandonadas minúcias do meio teatral. A conversa subia, a temperatura também. Não demorava muito até que estivéssemos tocando e cantando a mil ou que as Wharfdale de 18 polegadas começassem a se arrepender de terem sido fabricadas e obrigadas a segurar o Delta Lady de Leon Russel no último volume.

Mas no meio dessa felicidade toda, num belo dia, Ricardo Mattos - flautista e saxofonista do Grupo Faia - que namorava nossa inocente vizinha e usava nosso apê para suas ocultas tertúlias amorosas - chegou esbaforido:
- A mãe dela descobriu nosso namoro! E chamou o Nelson Duarte!
Nelson Duarte era um meganha televisivo idolatrado pela classe média “redentora” que se dedicava a invadir os lares alheios atrás de nós, jovens metidos com drogas, bebidas e som alto, e cortar nossas bastas cabeleiras, em troca de “pequenas doações” para o fundo sem fundo que segundo as más línguas ele teria criado em prol de si mesmo. Aparecia em programas de TV como um defensor de Deus, Pátria, Família e o que quer que fosse feito em nome disso naqueles áridos tempos de Ferrocracia.
Em pânico, compramos imediatamente umas três dúzias de cervejas e instalamos um Comitê de Resistência para decidir quão pouco tempo teríamos pra sumir dali. Chegamos à sábia conclusão de que deveríamos voltar à casa de meus pais na Tijuca, onde gozaríamos de um duplo álibi: casa dos pais e Tijuca... O único problema é que teríamos os três de coabitar no meu quarto de solteiro. Mas isso ainda era melhor que ir em cana. E lá fomos, eu, Toninho e Guarabyra, morar na Tijuca, onde à noite dávamos boas gargalhadas olhando pra esquina onde eu tinha acabado com o Fusquinha. Quando, quarenta e oito horas depois, Nelson Duarte finalmente chegou à Alberto de Campos, só restavam as caixas Wharfdale e aquela minha cama fininha. As caixas - que nem o proprietário do apê sabia de quem eram - só não foram levadas por nós porque eram pesadas demais para uma fuga rápida. Mas minha cama fininha ficou lá e os canas ficou lá devem ter boas risadas olhando pra ela.
Diz o ditado: Depois da bonança sempre vem a tempestade. Só que a gente não estava nem aí pra tempestade. Vivíamos os maravilhosos, atordoantes, imprevisíveis e deliciosos anos setenta...


"Vida de Artista" é coluna mensal de Luiz Carlos Sá publicada mensalmente na Revista Backstage

http://luizcarlossa.blogspot.com/2009/07/os-garotos-de-ipanema.html

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Sá & Garabyra em Santo André por Eduardo Guimarães

“Continuar é o que devemos. É o que sabemos. É o que queremos. É o que nós prometemos. Então, vamos em frente”.

Essa frase foi publicada por Luiz Carlos Sá em seu blog no dia 05 de junho, duas semanas após a morte do parceiro Zé Rodrix. A vontade de estar no palco, pelo parceiro que partiu e por eles mesmos, é o combustível que mantém Sá e Guttemberg Guarabyra juntos, levando suas canções pela estrada.

Nesta sexta-feira, 26, a dupla esteve mais uma vez tocando em Santo André, cidade onde foi formado o primeiro fã-clube dos músicos, no início dos anos 80, e que até hoje os acolhe como se fossem da região. De coração eles devem ser. Este foi o terceiro show sem Zé Rodrix e a falta que o músico faz no palco é sentida em diversos aspectos diferentes. Obviamente para os músicos tem a perda do amigo e companheiro que não tem como ser preenchida. Para o público, além do carisma, há uma lacuna pela falta de alguns dos clássicos do trio e de uma energia que aparentemente era irradiada do cantor e tecladista.Talvez quem conheça a carreira deles concorde que o aspecto mais rock n’ roll estava nas composições e no teclado de Zé Rodrix. Basta ouvir “Mestre Jonas” ou “Jesus Numa Moto”. A falta desse lado ‘rocker’ é um dos aspectos mais nítidos agora. Sendo assim, Sá & Guarabyra apresentaram ao público alguns dos maiores sucessos lançados pela dupla principalmente nos anos 80.

Logo após a segunda música do repertório, a bela “Harmonia”, Sá comenta com o público sobre a falta de Zé Rodrix e quase não consegue terminar de falar. A emoção tomou conta do músico. Guarabyra, do outro lado do palco, também se mostrou emocionado com a lembrança.

Em seguida a dupla apresenta “O Pó da Estrada”.Algumas das canções que fizeram parte do show foram “Tabuleiro”, “Cinamomo”, “Pássaro”, e as mais populares “Roque Santeiro”, “Caçador de Mim”, “Espanhola” e “Dona”.

Após essa música a dupla e a banda saem do palco e um vídeo começa a ser exibido no telão. São imagens de diferentes épocas de Zé Rodrix, desde sua infância até shows recentes. Voltam ao palco para apresentar uma das composições mais famosas de Rodrix, “Casa no Campo”, parceria com Tavito. Bela homenagem.

O show termina com a música que certamente é a marca registrada da dupla, “Sobradinho”. A dupla se despede e sai do palco, deixando a banda terminar a canção.

No palco Sá & Guarabyra são acompanhados pelos músicos Fabio Santini (guitarra), Alex Reis (bateria), Constant (teclado) e Pedro Baldanza (baixo), que também é fundador do grupo O Som Nosso de Cada Dia. Assim como foi nos anos 80, agora são apenas Sá & Guarabyra a caminhar sobre o pó da estrada. Que a caminhada seja longa.


Fonte: http://territorio.terra.com.br/canais/canalpop/materias/materia.asp?codArea=5&materiaID=782

domingo, 28 de junho de 2009

1 mês sem Zé Rodrix - Mensagem de Júlia Rodrix

Zé Rodrix & Julia em Recife, com o jornalista, compositor e
atual Secretário de Comunicação de Cabo de Santo Agostinho(PE), Gilvandro Filho- 2005

Alan,
O que dizer? Como dizer?


Agradecer, os 26 anos que ganhei tendo o prazer e a honra de conviver com este homem, este mestre de tantas artes, este ser humano de tantos humores e de sabedoria imensa e paciência curta para pequenices, burrices, preconceitos baratos, mesquinharias? Dizer o que perdi? Tudo seria pouco e difícil.


O Zé sempre foi e será um homem controverso, tipo ame-o ou deixe-o. Agora vejo que até mesmo aqueles que o detestavam, no fundo, tinham por ele respeito. Pela sua honra, pela sua ética, pela sua dureza contra qualquer coisa que não fosse no mínimo correta e justa.


Como Maçon lutou para que a Ordem voltasse a ser modelo respeitando seus fundamentos, fez pela Maçonaria durante 10 anos o que muitos não fizeram por séculos. Ou desfizeram, tornando a Maçonaria forma de poder e disputa em vez de uma Ordem de justiça, ética e fraternidade.
Pela música, você bem sabe foi contra dogmas, cultos por pessoas em detrimento a obras, culto à mídia no lugar do talento verdadeiro.


Seus textos nas listas que participava não eram mensagens curtas mas lições, pensamentos rápidos e muitas vezes hostis e mordazes para aqueles que estavam preparados para aquilo que querem, podem e conseguem entender o verdadeiro significado da palavra, do pensamento, do conhecimento.Para aqueles que se ofendiam, ele dizia apenas para não se levarem a sério, para não darem tanta importância a si próprios e às suas vaidades pessoais.


Como Pai, fez pelos 6 filhos o que um pai pode fazer. Deu o exemplo de correção, não com palavras, mas com atos, com atitudes. Ensinou a cada um deles o valor de ter amigos, de ser fiel a seus valores, de ser fiel a seus princípios, e de que a pior coisa que se pode fazer é trair a si próprio fazendo concessões. Ensinou o valor do trabalho, da realização dos sonhos e o prazer de ler, de conhecer, da busca. Tenho dois filhos dele e mais quatro de herança que me foram dados por ele como uma bênção.


Marya, uma maravilhosa filha mais velha, que tem a voz mais linda do mundo, compositora, cantora de musicais e atriz talentosa. Uma mulher de muita fibra, que vai lançar seu primeiro disco agora para orgulho de seu pai coruja que postava todos os trechos de suas performances nas listas. Dela tenho uma neta torta de 16 anos que se chama Morgana e que é uma luz de beleza e carinho, e também de um talento extraordinário.


Joy, um anjo de meiguice e doçura, psicóloga, que está desenvolvendo um projeto de atenção integral ao paciente e pelo qual o pai estava empolgadíssimo. É a mãe da Amodini, uma bênção de 5 anos de idade, que me disse que a Natureza não foi justa porque levou o vô Zé antes dele merecer, e veio do Rio para me dar colo.


Rafael, seu filho de Natal, um homem maravilhoso em inteligência, delicadeza, carinho e um profissional exemplar, que me conforta e aconchega por ser tão parecido ao meu amor e por ter um caráter de fazer inveja a qualquer um.


Mariana, obstetra, sempre pronta a atender, a cuidar, é a fazedora, a nossa mãe nas horas das dores, dos cuidados.


Antonio, meu primeiro filho com ele, meu companheiro, meu porto seguro, que herdou a memória, a sagacidade, a inteligência e o humor ferino, mas que é a doçura em doses imensas.


E por fim (será mesmo?) a Bárbara, que alguns já conhecem, que tem seu gênio, sua musicalidade, opinião própria, seu jeito de compor completamente diferente do pai, mas também não dá mole, como ela diz, pra ninguém e não é bengala de ninguém.


Dona Lourdes, a mãe dele com 81 anos, que mora comigo e que está bem, sofrendo, mas sabe que temos que continuar a vida como ele nos ensinou.


Quanto ao meu melhor amigo, ao meu amor, ao companheiro de uma vida tenho pouco a dizer porque ainda não consigo entender, não consigo escrever sem chorar muito.


Aos amigos só tenho a agradecer o apoio, ao amor que me tem dado e peço que não esqueçam sua obra, que não esqueçam seus ensinamentos, que não deixem que a mediocridade tome conta do mundo. Não permitam que o mundo emburreça, isto sim seria um insulto à sua memória. A burrice é o pior dos pecados, porque cega, anula e mata.


A você, Alan, muito obrigada pelo cuidado, pelo carinho e pelo trabalho que certamente eu te darei porque quero o endereço novamente do Orkut, quero os textos, que certamente lerei e selecionarei para uma publicação, seja pela editora ou pelo blog, ainda não sei. Todas as decisões serão tomadas por mim e pelos meus 6 filhos.Não sei como poderemos fazer isto mas gostaria de ter estes textos, todos os que estiverem disponíveis, tanto os dele como os dos admiradores, para poder ver o que fazer, afinal não vou deixar que suas palavras voem ao sabor dos ventos.


Um beijo e, mais uma vez, obrigada.


Julia para sempre Rodrix


27/junho/2009


(mensagem de Julia Rodrix ao jornalista Alan Romero, dirigida aos fãs, amigos e admiradores de Zé Rodrix do Orkut)

1 Mes sem Zé Rodrix

1 mês sem o Zé Rodrix. 1 mês avaliando a permanência ou não do blog no ar, apesar das dificuldades e daqueles que contribuem de forma negativa para o trabalho dar certo.
O blog foi criado para que todos tenham o mesmo prazer de conhecer a obra de Sá, Rodrix & Guarabyra, e a química que ocorria quando se juntavam 3 músicos geniais , individualmente falando, apoiados por uma banda de « feras » ou sozinhos!
E de alguma forma funcionou !
Hoje, com o disco novo para sair, e a memória do Zé Rodrix precisando de um local específico, esse blog se divide em dois : O Paraíso Agora continua e nasce o Zé Rodrix, um blog tributo !
Hilda Borges

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Um desconhecido Zé

Zé Rodrix & Calazans
camarada zé edu escreve sobre um zé rodrix que ningúem falou



.txt convidou o camarada José Eduardo Camargo, jornalista e ativista de um grupo chamado Clube Caiubi de Compositores, que formou uma rede social muito antes disso virar moda. Pude testemunhar pessoalmente um pouquinho dos encontros desse grupo e lá soubre que Zé Rodrix estava totalmente envolvido.
Logo, ninguém melhor do que José Eduardo Camargo, o Zé Edu, para contar que Zé Rodrix morreu tão na ativa quanto sempre.
Sendo Zé Edu um ídolo meu, é uma honra publicar a .txtdermia a seguir:

___________________

Um desconhecido Zé


O Zé Rodrix que morreu na tevê e nos jornais não é o que conheci. Nas reportagens, a vida acabou mais cedo pra ele. Alguns o mataram em 1972, logo após a gravação de Casa no Campo pela Elis Regina. Outros o mantiveram vivo até a época do Joelho de Porco. Aqui e ali, uma pílula sobre a carreira-solo dos anos 70, ou um pitaco sobre o trabalho na Voz do Brasil. Poucos o viram respirando na volta do trio Sá, Rodrix e Guarabyra, no Rock’n’Rio de 2001. Disso em diante, silêncio. Como se nos últimos anos ele houvesse vivido recluso entre livros, discos e só.
Mas, meninos e meninas, tem mais. O Zé de quem me tornei amigo fez tudo isso aí do parágrafo de cima, sim. Só que o epílogo – esquecido por quase todos – foi um dos capítulos mais bonitos da sua biografia. Ele começa no fim do século 20, com o Zé arrasado, numa fossa abissal, após a morte de Tico Terpins, seu sócio na agência Voz do Brasil. Desencantado da vida, da música e da propaganda, não necessariamente nessa ordem. O primeiro túnel nesse fim de luz foi a literatura. Em 1999, Zé lançou o romance Diário de Um Construtor do Templo. O surgimento da maçonaria era o pano de fundo, mas resumir o livro a isso seria limitá-lo demais. E limitar também o escritor, que nos últimos dez anos publicou mais dois volumes, completando a chamada Trilogia do Templo (os outros dois: Zorobabel e Esquin de Floyrac). A volta à música (e à vida) se deu no retorno do trio. Com os camaradas Sá e Guarabyra, irmãos de fé. Disco e DVD lançados, caíram na estrada, percorrendo o Brasil.
A composição de jingles também voltou, assim como a energia para dedicar-se à maçonaria. Nesse meio tempo, Zé tornou-se ainda um polemista famoso, principalmente na internet, defendendo teses na contramão do establishment da classe artística. Como o repúdio ao jabá e ao financiamento público de discos e livros.
Além de retornar ao palco com o trio, Zé Rodrix retomou a carreira de compositor. Isso eu pude acompanhar de perto. Generoso, angariou parceiros musicais na internet (em listas de discussão como a M-Música) e resgatou antigas parcerias. Entre elas, a de Tavito, autor com ele de Casa no Campo e velho camarada dos tempos de Som Imaginário. Dessa safra saíram pérolas como Onde os Anjos Não Ousam Pisar (parceria com Etel Frota), gravada por Nasi. E canções que ainda virão à luz, em discos de outros artistas. A generosidade dele também estendeu-se à obra alheia. Em 2003, Zé conheceu o Clube Caiubi de Compositores – um grupo de absolutos desconhecidos que se reunia em um boteco das Perdizes. Com conselhos aqui, parcerias ali e incentivos acolá, ele ajudou a levar para a frente um projeto que hoje reúne quase quatro mil artistas independentes (clubecaiubi.ning.com) no Brasil e no exterior.
Como todo gênio (e eu não tenho medo de usar o adjetivo), Zé Rodrix era um permanente work in progress. Não descansava. Escrevia o fim de seu quarto romance (que ele chamava de O Cozinheiro do Rei) e preparava o lançamento de mais um disco de músicas inéditas do trio Sá, Rodrix & Guarabyra – que deve sair em breve. Havia montado um show solo com uma big band de jazz, que teve apenas três apresentações, no ano passado. E produzia a própria filha, Bárbara Rodrix, também (excelente) compositora. Nada disso saiu nos jornais, nem passou na tevê. Mas, quem não viu, ouvirá.
_________________________________________
http:///www.mtv.com.br
Foto: Guarabyra

quarta-feira, 27 de maio de 2009

CARTA ao MEU PAI

Zé & Edyr

Escrita pela Joy ( 2ª filha de Zé Rodrix), filha de Edyr Duqui ( ex-de Castro), mãe de uma das netas amadas do Zé, essa carta circulava entre amigos e parentes no velório, em um papel adornado com um desenho que representava o jovem Zé! Antecedia a mensagem um mantra.

"E agora, José?
MEU QUERIDO PAI, QUE A DIVINA MÃE TE RECEBA E AMPARE EM SEUS BENEVOLENTES BRAÇOS.
QUE SUA ALMA QUE AQUI MUITO APRENDEU, SE EXPANDA EM DEUS.
O SEU GRANDE ARQUITETO DO UNIVERSO LHE CONVOCOU.
AGORA, LONGE DESSA CELA DE CARNE, OSSO E SANGUE, QUE VOCÊ POSSA, NA VELOCIDADE DO SEU PENSAMENTO ENCONTRAR A LUZ.
VAI, E DESVENDA O MISTÉRIO. O PORTÃO ESTA ABERTO.
NÓS QUE AQUI FICAMOS, SEMPRE TE AMAREMOS.
VAI, E DESVENDE E APREENDA OUTRAS ESFERAS.
SEJA AMOR, MEU QUERIDO PAI.
AGORA VOCÊ SABE MAIS AINDA.
MEU ETERNO AMOR, RESPEITO E GRATIDÃO, PELA VIDA QUE CONTRIBUIU EM ME DAR, E PELA OPORTUNIDADE DE SER SUA FILHA.
AGORA, IRMÃ DE ALMA.
ATE UMA PROXIMA.
JOY"

ZÉ RODRIX ME DEU UM LIVRO E DEPOIS MORREU


Zé Rodrix por Klaudia Alvarez



Publicado por Luiz Berto em UM TEXTO DE HUGO STUDART (Luiz Berto toca o blog 'Besta Fubana' e Hugo Studart é jornalista)





Esclareça-se de antemão que o personagem não morreu porque me deu um livro. Há um intervalo de um ano entre o acontecimento extraordinário (o envio do livro) e o fato lamentável (a morte do autor). Escrevo essas singelas linhas, sem reboliços ou rebuscados, só para registrar que a vida, grata e generosa, sempre nos apresenta oportunidades de crescimento. E que por razões diversas, ou sabe-se lá por quais vacilos, deixamos a chance passar. Rodrix foi uma dessas oportunidades por mim perdidas.



Ele deu vários indícios carinhosos de que gostaria de se aproximar de mim. Agora não dá mais, azar o meu. Puxou assunto em cinco ou seis encontros que mantivemos. Convidou-me para almoçar com nossas mulheres e alguns amigos. Insistiu para que eu fosse no lançamento do seu livro, em 2008. Foi em São Paulo; eu estava em Brasilia, não pude ir. Ou não cavei uma maneira de ir. Tempo, diz o velho ditado, é questão de prioridade.



Ato contínuo, Rodrix me enviou o livro pelo Correio. Em verdade três livros, batizados de “ Trilogia do Tempo ” (Record), e assinados no estilo dos mestres clássicos das artes da cabala e das bruxarias — *Z. Rodrix*, dessa forma aí, ladeado de asteriscos, com o nome José escrito no duplo diminutivo, e o sobrenome Rodrigues no diminutivo simples.



O primeiro volume chama-se “Johaben: Diário de um Construtor do Templo”. Tem 446 páginas. O segundo ele batizou de “Zorobabel: Reconstruindo o Templo”. Tem 640 páginas, é ainda maior. O terceiro volume da trilogia chama-se “Esquin de Floyrac – O Fim do Templo”. Mais 655 páginas. Total: 1.740 páginas – um susto! Guardei na estante, num lugar de honra e destaque, é verdade, mas sem abri-lo sequer.



Em cada detalhe, a trilogia exala esoterismo e dá indícios de que o autor pertenceria a alguma escola iniciática. Vi na televisão que seu corpo foi velado na Grande Loja Maçônica de São Paulo. E que quanto mais velho ficava, quanto mais o tempo passava, mais entusiasmado estava com os mistérios da maçonaria.



Conheci Zé Rodrix em meados de 2006, logo após o lançamento do meu próprio livro, “A Lei da Selva” (Geração). Foi o historiador Luis Mir, um grande e leal amigo, que nos apresentou. “Vou te levar numa confraria só de intelectuais e escritores”, propôs Mir.



Todas as manhãs de sábado, faça chuva ou faça sol, uma pequena fraternidade se encontra na pérgula da Livraria da Vila, no bairro de Vila Madalena, São Paulo. Não são muitos, um pouco mais de dez, por vezes um pouco menos. Daquela primeira vez que já estava lá o jornalista e poeta José Neumanne Pinto, velho amigo. Foi ele quem me apresentou aos escritores presentes, entre eles um senhor de cabeça completamente branca. “Este aqui é o Zé Rodrix”.



Quem? Aquele doidão que embalou as festinhas da minha adolescência com as performances do Joelho de Porco? Ainda antes, nas primeiras festinhas, eu adorava dançar sob o ritmo de “Soy latinoamericano, e nunca me engano, e nunca me engano”. Sim, em segundos pude constatar que não se tratava de um homônimo, mas do próprio, daquele que, mais tarde, ajudou a embalar parte de meus sonhos idílicos juvenis na universidade.



“ Eu quero uma casinha no campo/ onde eu possa compor muitos rocks rurais/ e tenha somente a certeza/ dos amigos do peito e nada mais ”. Nossa, eu ainda sabia cantar a balada clássica “Casa no Campo”. E fui recordando da letra, cantarolando em silêncio uma estrofe da qual gosto muito, “ Eu quero a esperança de óculos/ E um filho de cuca legal/ Eu quero plantar e colher com a mão/ A pimenta e o sal ”



Sentei-me em cadeira transversal à de Zé Rodrix. Neumanne era a grande estrela da mesa. Contava histórias, bastidores da política, causos sobre intelectuais pátrios, ocupava por completo o ambiente. Até Luis Mir, dono de um pensamento ácido e de uma personalidade igualmente dominante, ficou em semi-silêncio. Calouro, procurei me manter discreto, observando cada um dos presentes. Em especial Zé Rodrix.



Confesso que esperava encontrar um vovô doidivanas e performático, tipo Zé Celso Martinez Corrêa, Cacá Diegues ou Paulo César Pereio. A qualquer momento, imaginei, aquele guru dos delírios lisérgicos poderia sacar um baseado social, subir na mesa e declamar algum manifesto pela revolução cultural.



Mas Zé Rodrix permanecia discretíssimo. Comedido na cerveja, guardava o silêncio das línguas cansadas. Vez por outra fazia alguma intervenção. Aparentava ser um homem sábio e sereno. A seu lado, uma mulher muito bonita, exótica e inteligente. Estavam juntos, descobri mais tarde, há mais de duas décadas, tipo casal estável com filhos e netos.



Ao longo quase dois anos, retornei algumas vezes à Confraria da Vila. Quase sempre com o Mir; duas vezes sozinho. Fui sempre muito bem recebido. A conversa, paradoxalmente simples e inteligente, um blend singular de erudição com trivialidades, sem qualquer resquício de pedantismo uspiano. Certa vez chega esbaforido e amassado o poeta vanguardista Mário Chamie, lider da dissidência ao movimento concretista, 140 obras traduzidas para 57 idiomas - enfim, um dos grandes.



“Estou ubinubilado”, declara aos presentes. Mas o que seria ubinubilado?, perguntei. “Ora”, explicou o mestre-poeta, “enevoado, com os pensamentos turvos”. Ele acabada de bater o caro e estava, como Aristófanes definiu o filósofo Sócrates, nas nuvens – só que em nuvens negras, ubinubilado.



De outra feita alguém questiona como é que os cabelos de Neumanne, outrora 100% grisalhos, de repente começaram a ficar negros. “O Silvio Santos mandou o Jaça cuidar da minha imagem”, explica. “Ele decidiu que eu precisava fazer luzes ao contrário”. Paraibano de Uiraúna, vivenciando sua primeira experiência metrossexual, virou-se para as mulheres a fim de perguntar: “Como se chama essa técnica de colocar aquela touca ridícula na cabeça e tingir alguns fios brancos?”
“Trevas”, respondeu de pronto Zé Rodrix, num sutil maniqueísmo, ora em desuso. E nada mais falou.
Já na segunda incursão tive a sorte louca de me sentar ao lado de Rodrix. Foi ele quem ensaiou uma conversa paralela comigo. Educado, demonstrava interesse por meu livro. E por mim. Perguntava mais do que respondia. Em outra ocasião, conversamos sobre os templários medievais. Demonstrava profundo conhecimento; engatilhou a franco-maçonaria na sequência.
Rebati com os rituais e mistérios dos Eleusis na Grécia clássica, uma paixão pessoal. Falamos de “Juliano”, romance histórico de Gore Vidal sobre o último imperador pagão, de Sêneca e dos rituais romanos da morte, até voltamos para os templários. E mais uma vez Rodrix quis falar da maçonaria, tema deveras estranho àquele ex-maluco-beleza. Deu seu cartão pessoal. “Me liga quando vier a São Paulo”, propôs. Não liguei –mais por timidez do que por falta de tempo.
Em nosso último encontro, fevereiro de 2008, Rodrix tomou a iniciativa de convidar os poucos confrades presentes a esticar para o almoço. Eu estava com minha mulher, Adriana. Ele com Júlia, aquela senhora esguia, inteligente e excêntrica. Ele indicou um restaurante japonês nas Perdizes. Sentamo-nos perto um do outro. Adriana e Júlia também. Mesa grande, farta, conversa inteligente, ao mesmo tempo erudita e trivial.



Rodrix não aparentava guardar qualquer resquício daquele homem que o tornou famoso, um dos gurus pátrios da contra-cultura, aquele que propôs primeiro o Som Imaginário, depois trocar a sociedade capitalista de consumo por uma casinha no campo, do tamanho ideal, de pau a pique e sapê, onde pudesse plantar seus amigos, seus discos e livros e nada mais. Morava no coração de Sampa, deslocava-se num carro novo e bonito e aparentava, pelas roupas e hábitos, usufruir de grande conforto financeiro. Trabalhava há 20 anos com publicidade, fazia jingles. Lia, lia muito sobre templários, maçonaria e outras ordens iniciáticas. Tinha 60 anos.



Foi naquele restaurante que Rodrix convidou-me para o lançamento da “Trilogia doTemplo”. Poderia ter ido. Poderia ter aceitado o convite para visitá-lo quando em São Paulo. Poderia ter usufruido da amizade desse homem interessante. Poderia ter feito tantas coisas que não fiz… Como não fiz, Zé Rodrix me enviou um livro. Semanas atrás esteve em Brasilia, num show com Sá & Guarabira, que antes de ser uma dupla, era um trio formado por Rodrix. Mais uma vez, não fui.



Leio na internet que neste exato instante, meio dia de sábado 23 de maio, enquanto termino de escrever estas linhas, Rodrix está sendo cremado. Tinha 61 anos, deixou seis filhos, dois netos e muitos amigos.



Numa de suas mais conhecidas poesias, Jorge Luis Borges lamenta-se:
”Se eu pudesse novamente viver a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros. Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido.
Se eu pudesse novamente viver minha vida, teria cometido menos erros. Me resta agora ler a “Trilogia do Tempo”.

LIBERDADE É A ESCOLHA CONSCIENTE

Zé Rodrix, Tavito, Lis Rodrigues, Maria Valéria Bethonico , Marlene Alves e Hilda Borges
Santos - 2008

LIBERDADE É A ESCOLHA CONSCIENTE
Zé Rodrix
15/10/2008


Surge uma nova classe-media no Brasil, fruto das politicas paternalistas e populistas ora em curso: são os egressos das classes C e B menos, que pulam para o degrau de cima exatamente por ter uma esmolinha a mais em suas Bolsas. Mas continuam vivendo da mesmissima maneira que antes, porque seu pensamento nunca muda. Hoje em dia, quando a tecnologia ja nos permite o exercicio do gosto pessoal em todas as matérias, é fascinante perceber duas coisas: uma, como o gosto pessoal contrário ao nosso ainda incomoda nosso projeto de poder, e a outra é como as decisões políticas e estéticas das classes menos favorecidas acabam por infeccionar as classes mais altas. Há quem defenda a imposição de um "cânone ocidental" como forma de regular estas relações na produção de arte, numa prova de que até no território da arte existe lugar para ditaduras e tiranias. Isso é ilusão, e a cada celular vendido ela se torna mais tênue e menos capaz de manter-se viva.


O gosto pessoal nao tem a ver com nenhum cânone, a nao ser naquele território comum a todos em que se sabe e busca o Belo, e não precisa de discussão para haver acordo. A Apeyrokalia ( falta de intimidade com o Belo) de que o Aristoteles ja falava, hoje se somou à Apeyrosofia ( falta de intimidade com a Sabedoria) e à Apeyroyeró ( falta de intimidade com o Sagrado) que se tornaram nossos piores inimigos enquanto raça humana. O mundo do consumismo tornou todas as relações puramente superficiais, da pele pra fora, e a busca incessante pelo prazer se faz única e exclusivamente nos limites da sensualidade física, seja ela real ou imaginária.


Para gerar e preservar poder a tradição brasileira nos impõe limites à busca pelo conhecimento, fazendo tabula rasa de tudo que é necessário para a vidae gerando este orgulho de ser ignorante que vem se tornando a nossa marcaregistrada enquanto sociedade. Isto pode acontecer por escolha ou imposição externa: conhecer e optar pelo que quer que seja é bem diferente de só seter uma única opção, e pior ainda quando esta opção é exatamente aquela que o poder impõe através da perpetuação da ignorância. Isto se dá das maneiras mais diversas, em todas as classes sociais, por fastio e preguiça, na maior parte das vezes, mas sempre para preservar o poder através da perpetuação da ignorância.


Qualquer cânone ( ocidental ou oriental) é apenas uma das inúmeras opçõespossiveis, mas certamente é melhor conhecê-las todas e optar por não seguiruma delas ( como eu faço ) do que não conhecê-las e nunca poder optar pornenhuma delas, ficando reduzido apenas ao território limitado pela falta deintimidade. Reconhecer que a nova classe-média brasileira não tem gosto quer dizer que a nova classe- média não tem escolha, por não conhecer as possibilidades entre as quais poderia escolher aquilo que, individualmente, mais lhe agradasse: e sem sombra de dúvida eles trazem para seu novo estamento social as faltas de opcão e de intimidade (no sentido aristotélico) que já experimentavam quando no estamento inferior. Esta ascenção social se dá rigorosa e exclusivamente nos limites do consumo material, não representando nenhum avanço mental ou intelectual, porque preservam de seu estamento anterior exatamente os hábitos de desconhecimento do Belo, da Sabedoria e do Sagrado que eram a sua marca registrada enquanto classe menos favorecida.


A definição de liberdade é a capacidade de escolha consciente, através do conhecimento das opções possíveis e sempre segundo uma decisão pessoal e intransferível: não havendo esta consciência, qualquer escolha estará escravizada ao poder ou cânone impostos, reduzindo-se e desqualificando-se exatamente por estas características de imposição.


terça-feira, 26 de maio de 2009

Zé Rodrix por Erico San Juan




Conheci o trabalho do músico ouvindo "Ilha da Higiene", que ele fez para o especial infantil Plunct-Plact-Zuum, da TV Globo, nos anos 80.


Como muita gente, também ouvi essa maravilha chamada "Casa no Campo".


Depois, meu irmão comprou o CD do grupo Joelho de Porco, Saqueando a Cidade, e o solo I Acto. Trabalhos e concepções diferentes, o humor e a poesia em momentos distintos. As duas vertentes se uniram em "Quando será".


Já no novo século, com a febre das listas de discussão na internet, tive contato com a língua ferina e sensata do artista. Cheguei a visitá-lo em sua casa, ele sempre trabalhando freneticamente, sempre gentilíssimo.

No final do ano passado, seu parceiro Guarabyra me convidou para criar a capa do CD de Sá, Rodrix e Guarabyra ainda inédito.


Meses depois, ouvi na Rádio USP FM uma série de programas especiais, conduzidos pelo jornalista Toninho Spessotto, sobre vida e obra do compositor. O homenageado tocou sucessos e canções inéditas. "Onde os anjos não ousam pisar", parceria recente com Etel Frota que ele tocou no programa, me arrepia até hoje.


Cruzei com Zé a última vez neste blog. Ele mandou um e-mail comentando o artigo sobre a Banda Calypso.E foi só. O que pra mim já é muito.



(O desenho acima é uma caricatura de Sá, Rodrix e Guarabyra, feita por mim pouco depois do retorno do trio. Guarabyra adotou este desenho como ilustração para sua seção de crônicas em um site na internet)


Show Rock Rural na TV Brasil


O programa Cena Musical, da TV Brasil, vai passar show do trio gravado no Centro Cultural Banco do Brasil no início de maio nesta quarta dia 27 de maio, às 20 horas. O show foi parte de uma série sobre o Rock Rural que aconteceu no CCBB.


A TV Brasil é canal 2 no Rio de Janeiro (TV aberta) e 18 na NET

segunda-feira, 25 de maio de 2009

VIXE, COMO TEM ZÉ (RODRIX) NA MÚSICA BRASILEIRA (p/ Ayrton Mugnani)



O título desta pequena homenagem ao grande Zé Rodrix parece-me adequado, lembrando que ele, embora carioca, era filho de um músico baiano. Zé era músico completo, incapaz de receber um rótulo só: roqueiro, MPBzeiro, jingleiro, arranjador, maestro, escritor...


Começaremos pelo começo: um maxixe de sua autoria (ainda assinando "José Rodriguez") como integrante do grupo Momento4uatro, gravação de 1967.

Momento4uatro - Glória
http://sharebee.com/e4a667f0


Não, esta mensagem não inclui "Casa No Campo". Mas inclui outro grande sucesso de Zé, "Hoje Ainda É Dia De Rock", consagrado na interpretação de Sá, Rodrix & Guarabyra - mas lançado um ano antes quase em segredo pelo grupo Os Famks (sim, o futuro Roupa Nova).

Os Famks - Hoje Ainda É Dia De Rock
http://sharebee.com/28282696


A versatilidade de Zé não tinha limites, nem a de Sá e Guarabyra. Além de fazer sucesso com a ironicamente nostálgica "Zepelim", o trio compôs sob o mesmo tema a marcha "Cordão Do Zepelim", lançada por Nara Leão em 1972.

Nara Leão - Cordão Do Zepelim
http://sharebee.com/2a940ebd


Zé se revelou um dos maiores "hitmakers" de sua geração - e até de todas as outras. Quem lembrou de sua composição "Gerações", para uma telenovela dos anos 1970, deve ter se lembrado também de seus muitos temas novelísticos de sucesso - e náo só da Globo, como atesta "João Corisco", que SR&G compuseram e interpretaram para a novela Jerônimo, O Herói Do Sertão da TV Tupi em 1972 (a trilha tem mais gravações e composições de SR&G que se tornaram raras e merecem ser reeditadas condignamente quando nossas grandes gravadoras mduarem, ou seja, melhorarem, mas isso já é outra novela).

Sá, Rodrix & Guarabyra - João Corisco
http://sharebee.com/17b01ada


Falamos sobre composições que seguem o mesmo tema. Pois bem, agora vou falar um pouco em "bloguês". Ontem estive no altamente recomendável sebo Big Papa (na Galeria Nova Barão, fone 11 3237-0176), comandado por Carlos e Kátia, talvez o casal mais simpático do mundo do disco desde Zé & Júlia da Nuvem Nove. Um dos assuntos de ontem foi o passamento de Zé Rodrix, e Carlos, que residiu em Cuba, contou-me da surpresa ao chegar ao Brasil e ouvir um dos grandes sucessos de Zé, "Quando Será". "Essa música fez sucesso lá em Cuba com Willie Colon!", Carlos comentou. Chegando em casa, dei uma googlada e descobri: Carlos se referia a "El Dia De Mi Suerte", composição de Colon em parceria com Hector Lavoe e lançada por Colon em 1973. Náo foi propriamente um plágio; Zé e Colon desenvolveram a mesma idéia em clima de "latinidad", mas com melodias diferentes.

Confira:Willie Colon - El Dia De Mi Suerte
http://sharebee.com/e8d04cb4


E ninguém pense que Zé ficou preso aos anos 1970. Ele seguiu ativo e criativo; inclusive, no terceiro milênio, tornou-se curador do Clube Caiubi de Compositores, formando com alguns integrantes o grupo Os Tropeçalistas (que gravaram um CD) e compondo com um dos diretores do Clube, o emérito Sonekka, uma das melhores composições de ambos: "Nunca Senti Tanto Medo De Ser Feliz", da qual aqui vai um vídeo ao vivo, cantado por Sonekka e Bárbara Rodrix, filha de Zé.

Sonekka e Bárbara Rodrix - Nunca Senti Tanto Medo De Ser Feliz
http://videolog.uol.com.br/video.php?id=400497


http://www.ayrtonmugnainijr.blogspot.com/

MISSA DE 7° Dia por Zé Rodrix ( Rio de Janeiro)

Os amigos do Zé Rodrix, companheiros de turma e de escola e o CAp(Colégio de Aplicação) farão realizar uma missa de sétimo dia na quinta-feira, dia 28 de maio às 19:00hs na Igreja de São José, na Lagoa. o convite será extendido a amigos em geral, incluindo músicos, atores, diretores e personalidades que desejem comparecer e prestar a sua homenagem.
Haverá uma mesa de som, e o microfone estará aberto a manifestações, inclusive musicais, se for o caso.

Uma última palavra sobre meu primo Zé Rodrix

22 de maio de 2009, 16:02:36 -

"Enquanto o mundo perde a forma, Eu me encontro em mimE é assim que eu sempre vou seguir... meu coração!!!" (Zé Rodrix, em anúncio para a Chevrolet)

Eu era criança. Começo dos anos 70. No rádio cantavam "Uma casa no campo: onde eu possa guardar meus amigos, meus discos, meus livros... e nada mais". Menino urbano, filho único com poucos amigos, nunca esqueço: eu sempre pensava o quanto eram felizardos os amigos do autor daquela canção. Esqueci disso, aprendi a tocar e compor, peguei meu piano elétrico e meu violão, meu baixo e meu bandolim, e fui para a estrada. Aos 17, já tocava na Belo Horizonte 14Bisada dos anos 80, pós Tavitos e Clubes da Esquina. Minha vida seguiu. Voltarei às lembranças de menino, depois, ao longo desse relato.
"Eu tinha apenas 17 anos No dia em que saí de casa(E não fazem mais de 4 semanas que estou na estrada" )

PRIMO ZÉ TRINDADE

Não eramos primos de fato. Na verdade o Zé Rodrix (José Rodrigues Trindade) sempre chamou a mim (Lázaro Luiz Trindade Freire) de primo - desde o primeiro dia em que fomos apresentados, por sermos ambos de sobrenome Trindade (um sobrenome especial para ele, maçon), por nossas afinidades, por sermos tecladistas, multi-instrumentistas, escritores, espiritualistas, e pelos interesses de pesquisa, muitos, em comum.
Esta "primandade" rendeu frutos. Já a algum tempo, pelo menos uma vez por ano, ministravamos algum curso gratuito sobre esses temas, para platéias de 250 pessoas (casa cheia) no IPPB (http://www.ippb.org.br). Felizmente, gravei algumas dessas nossas palestas em vídeo; mas não os de Jesus Histórico, tema que nos uniu. Recentemente ele levara um CD de meu projeto musical-ocultista Naviterra, que nas letras fala dos elementos ocultistas e conscienciais que nos uniram, e combinavamos lançar. Bem feito para mim, outra vez. Eu e muitos discípulos, fizemos pouco, dependemos demais.


Meu "primo" era, como eu, interessados na psique humana. Não era psi, mas me contava sempre, orgulhoso, da sua filha que era, e discutíamos o enfoque clínico e o poder da palavra, a partir daí. Zé também era irônico, sarcástico, às vezes cruelmente desconstrutor; mas sem deixar de ser doce, humano e acessível, sempre que exigido assim. As listas em que as "coincidências" nos colocavam também falavam da afinidade: M-Música, Sintetizadores, Jesus Histórico, Ocultismo, Filosofia - e, mais recentemente, nosso amor comum por Donald Winnicott, Viktor Frankl e o sentido de existir. Não ouso me comparar em nada, mas é inegável que tinhamos coincidências demais, e se ele me via assim, e confio tanto em seu talento e juizo, devo aceitar a responsabilidade de ter algo de bom para repassar, também; pelo menos na falta dele. Afinal, era o próprio primo que me ensinou que "os deuses das coincidências prestam muita atenção a quem presta atenção neles".

Fomos descobrindo mais afinidades, e tenho orgulho em dizer que falar dos interesses dele é também falar de mim. Eramos também palestrantes interessados em temas ligados a Jesus Histórico, Simbologia, Ocultismo, Magia Mental, Sonhos e Tarot. Como não deu tempo dele me convidar para ser seu "irmão", e sobrinhos são os demolay, a afinidade enorme só podia fazer de mim um primo. Sempre nos tratamos e beijamos, mutua e fraternalmente, assim. Primo Lázaro, Primo Zé.


FOCO É PARA MEDÍOCRES

Num dia que MUDOU minha vida, após um desses cursos que ministramos sobre Jesus Histórico no IPPB, comiamos naquela barulhenta e deliciosa Esfiha Imigrantes: eu, Zé Rodrix, Olavo Borges, Adriana Splendore (da Rádio Mundial, que também trabalhou com o Zé e Cláudia Raia). Naquele dia, casa lotada, eu estava preocupado com o que seria o meu "foco" dentre tantas atividades distintas. O primo Zé, um generalista genial por definição, e que em muitos aspectos sempre foi um "pai" e exemplo para mim, fez um breve porém cirúrgico discurso a favor do generalismo inteligente que contrabalance e lance voz crítica a uma sociedade de especialistas medíocres. E me disse algo que JAMAIS esqueci, quase um pedido, um legado, que no dia soou para mim quase como uma daquelas frases que pais entregam para seus filhos no leito de morte:
"Primo, nunca se esqueça, esse discurso de 'foco' (numa atividade só) é para os medíocres. Nunca, nunca, nunca, mas nunca mesmo, permita que a mediocridade dos demais lhe roube NENHUM de seus talentos"
Poucos sabem, mas saí muito mexido daquela noite. Estava disposto a largar meus estudos de Jung, Psicanálise e Filosofia (hoje minha profissão), dedicar menos tempo à música, relegar a consciência crítica e estudos espiritualistas a um papel mais secundário e religioso, em favor de focar primeiro minha carreira de DBA e Eng de Software, constituir melhor algumas coisas materiais. E o Zé também me lembrou que, com a experiência, são os generalistas - como nós - que tinhamos a missão iniciática de proteger a vela da lucidez acesa em meio ao vendaval na escuridão. E que o dinheiro sempre seria apenas a consequência - inevitável, aliás - de qualquer trabalho bem planejado e bem realizado que NÃO o tivesse como motivação"


FUI LATINO AMERICANO, E VI QUE ERA ENGANO

Zé era (é) um cara engraçado. Preocupado com a mediocridade descompromissada do brasileiro, certa vez resolveu satirizá-la. Infelizmente, ele se esqueceu de pedir ao @Cardoso aquele cartaz de #SarcasmModeON. Zé achou que seria queimado na fogueira ao ironizar a falta de comprometimento das pessoas, numa época (30 anos atrás) bem menos tolerante do que os já intolerantes tempos atuais. Tomou um grande susto. Em vez das pessoas ficarem ofendidas, infelizmente os brasileiros estavam TÃO imbuidos daquele espírito que ele critivava, que a música virou um... um... SUCESSO! Já demos risada dessa história, e de um povo ("povinho de merda", segundo ele, abaixo) que se orgulha (?) quando se identifica com o "laissez-faire, laissez passer" de:
"Chego sempre atrasado Mas eu não corro perigoQuem devia dar o exemplo Chega atrasado comigoE (ainda) diz:Soy latino americanoE nunca me engano, e NUNCA me engano..."
Posteriormente, desiludido com a situação da América Latina, e com essa falta de consciência crônica, durante algum tempo o Zé deixou de cantar essa letra. Em shows trocava por "Fui latino americano, e vi que era engano, e vi que era engano". Mas depois, após o tempo necessário para que a sabedoria que a idade traga cores de realidade aos nossos ideais, voltou a cantar e dançar a letra original. Se temos que conviver com um esqueleto em nosso armário, é melhor que o ensinemos logo a dançar.

Suas gracinhas e críticas ao senso comum continuaram até o último momento. No caso, uma crítica a esses tempos narcisistas, e suas personagens que tornam-se ridículas ao avançarem na idade tentando negar, esteticamente, a sabedoria trazida pelo envelhecer:

Boa noite, "Cinderela"A sua cintura não é mais aquelaEu acho que você exagerou na mortadelaDevolve o silicone que eu te dei:Ele tá aí dentro que eu sei!Os sapatos de cristalEmbrulhados num jornalRememoram uns passadosCom muito menos assadosE o vestido da festaTão embolorado, atestaQue depois de tantos anosPrecisaria mais panos
As curvas dos teus quadrisQue um dia eu tanto quisDepois de tanta cervejaHoje ninguém mais desejaTentar a lipoaspiraçãoHoje não é mais soluçãoAté seus lábios carnudosFicaram reconchunchudos
Boa noite, "Cinderela"Devolve o silicone que eu te dei:Ele tá aí dentro que eu sei! :-)


UMA DOR CHAMADA ELIS

A morte de sua amiga Elis Regina, naquelas condições, foi um golpe que o "primo" jamais superou. Drogas, sentido, sucesso, dramas pessoais... O que estavam todos fazendo com suas vidas? Como usamos o tempo que nos resta no intuito de darmos um SENTIDO ao nosso existir?
Um dos maiores gênios compositores do país, alguém que teria marcado muito mais a MPB, naquele momento, simplesmente parou precocemente com os palcos, com todo e qualquer show seu, carreira solo, e tudo o que estivesse ligado a esse mundo de aparências. Não que tenha aposentado sua genialidade, ao contrário. Criou, dirigiu, escreveu, compôs, conscientizou, criticou... Não há quem não conheça seu studio no meio musical paulistano. Mas a carreira musical que levaria seu nome, não mais.
O que fazemos com o resto de nossas vidas, quando alguém com quem contavamos por muito tempo nos deixa precocemente? Elis não mais gravaria o Zé, é claro. Mas ele produziu sentido como nunca, a partir daí. Nunca mais houve um dia em que não acendesse nenhuma vela no coração de alguém.
Conversando no velório, entendemos que passamos pelo mesmo dilema. Ele não mais nos produzirá em um amanhã. Encerra-se aqui o projeto que eu e ele vinhamos esboçando - há tempo demais - de um livro comum sobre Jesus Histórico. Zé nos deixa essa pergunta incômoda - inúmeros talentos que descobriu, em várias áreas, de um certo modo acomodaram sob suas asas, deixando para o amanhã. Tenho a forte impressão de que ele, em algum lugar, está rindo e esfregando as mãos, iniciaticamente, ao ler comigo essas linhas. É a nossa vez de somarmos os fragmentos de talentos que ele depositou ou viu em cada um de nós, para vermos se, todos somados, podemos chegar pelo menos perto do que ele fazia sozinho, deixando sua luz brilhar por aqui um pouco mais.


"SPREMO" MUSICAL


Após o choque da morte da Elis, foram 20 anos de dor e amputação, traumática, consciente, até que seus irmãos Sá e Guarabira o convencessem a retomar o trio com maior sucesso de vendas em todas as lojas maçônicas do Brasil (rs). Já seu trabalho solo, ensaiou retornos, nunca com reconhecimento à altura de seu talento. Eu e o Dudu Burton (aqui da Voadores) tivemos a honra de estarmos presentes no pocket show jazzístico em que o Zé enfim anunciou seu retorno, nos porôes do Supremo Musical, da Oscar Freire. O local era tão pequeno, apertado e restrito que o Zé, sacana, ironizou dizendo que deveriam chamá-lo de "(e)Spremo" Musical. Não me lembro de já ter ouvido, na vida, um show tão bom. Jazz tocado com escovinha na bateria, baixo acústico e piano de calda. Jazz de alta qualidade, altíssima, tendo como ponto de partida as harmonias e letras como Mestre Jonas, Blues Riviera, Casa no Campo e demais. Com a catarse dos 20 anos de gozo acumulado, liberado entre amigos fiéis e queridos, em apenas 2 apresentaçõespouco mais que 25 pessoas por dia, desfilando 30 anos de carreira, de Som Imaginário a Sá, Rodrix e Guarabira, passando por Elis. Se alguém daqui esteve entre os 50 presentes, por favor me diga se estou exagerando ao incluir aquela entre uma das maiores genialidades que já vi a MPB produzir. E se alguém gravou, pelo amor de GADU, me mande uma cópia.

"Viver e ter sucesso é simples. Basta todos os dias você acender uma pequenina vela na câmera escura de seu coração. Ao encerrar sua vida inevitavelmente terá uma sala brilhante, iluminando a si e aos demais"
(Zé Rodrix, em curso de Magia Mental ministrado comigo no IPPB)


DVD 60 ANOS

No ano passado, eu e a @CamillaAvella atendemos ao chamado do primo Zé e descemos para Santos. Ele gostaria de gravar um DVD de comemoração dos seus 60 anos. Dessa vez, preferiu um formato Big Band, um jazz mais anos 30, com saxofonistas levantando e dançando. No camarim, abraçado a mim e à Camilla, ele comentava, feliz, suado, após pular muito, se vimos o pique que ele tinha aos 60 anos. (Camilla acaba de me ligar nesse momento, para me dar a notícia, que o Frank já havia me passado por torpedo beeem no comecinho da manhã). JAMAIS, JAMAIS, JAMAIS conseguiriamos imaginar que aquele que pulava e celebrava sua juventude nos deixaria menos de 1 ano depois. O show não foi para DVD, infelizmente, o Zé não gostou do material, perdemos o registro, talvez. Mas há fotos do show, bem como de um pocket show níver em que ele e Tavito fecharam um bar na 13 de Maio, em minha página principal do Orkut (Láz Freire). No fim de semana, pegarei alguns vídeos particulares meus do DVD jamais gravado e os colocarei no YouTube, como homenagem de despedida.

Quero contar um último caso em que o Zé foi parte marcante de minha vida, e indiretamente responsável (outra vez) por minhas decisões - e até relacionamento - atuais.


DIA DOS PAIS, 2006

Era um dia dos pais. Eu estava bem triste. Havia comentado com o Zé. Na época, fazia muito por uma família a quem eu amava, e faltava reciprocidade. Dois filhos, criados como meus, numa família repleta de adoções, onde os laços de afeto reais deveriam falar mais que os de sangue, indefiníveis. Mas além de esquecerem a "data", naquela manhã recebi uma série de agressões, injustas, simbólicas, de quem eu estava prestes a casar. Não vem ao caso os detalhes, exponho o mínimo apenas para contextualizar.
O fato é que o primo Zé, naquela tarde, faria um show com o trio (Sá, Rodrix & Guarabira) no SESC Itaquera (onde raios fica Itaquera?). Havia me convidado, eu não podia ir. Minha companheira - a mesma da injustiça - trabalharia no domingo, e eu precisaria fazer algumas coisas para ela, e ainda estar em horário récorde em seu trabalho, para a pegar. Mas com as injustiças da manhã, permiti focar em mim, ir ao show e rever amigos. Quem me conhece sabe que, naquela época, não era algo fácil ou simples para mim, naquela ocasião.
Após passar por Caruaru, Oiapoque, Bósnia e Zanzibar, finalmente cheguei em Itaquera, com o show já começado. Eu via sempre o Zé, mas nem me lembrava mais da última vez que tinha ouvisto (sic) o Sá & Guarabira. As canções me lembraram dos tempos em que eu aprendia a tocar violão, e que o conceito de liberdade era bem mais simples.
"Liberdade é uma calça velha, azul e desbotadaQue você pode usar do jeito que quiser..." (ZRx, dando o tom dos 70, para a USTop)
Catarse, eu sei. Mas cantei e berrei como nos anos 70. Um contraste estranho, eu acabara de deixar minha ex em meios pretensamente fashion de São Paulo, e me vestia como tal. E lá estava eu, de pé, no meio do público médio de Itaquera (sem preconceitos, mas a diferença de estilo e cores era evidente), recuperando em canções o pouco de dignidade que me restava.
O curioso no episódio é que cheguei tarde, e me postei ali perto do palco, na multidão. Perto de mim, na outra ponta, vi depois, estava o Tavito, da Rua Ramalhete, coautor de "Casa No Campo", outro que estava lá em BH nos anos 80, época em que eu vivia na, de e para a música. Também de pé, também em catarse. Show terminando, e acontece algo mágico, ali entre aquelas árvores todas, que transformou NOVAMENTE meu DIA e minha vida. O trio começará a tocar a última canção, acordes belos e conhecidos, o Zé vai para o microfone, e oferece o poutpourri que seguirá, em particular, a seus *amigos* Lázaro e Tavito, ali perto do palco. E o trio começa a tocar, como de hábito, Casa no Campo, Caçador de Mim e Espanhola. (Tavito é coautor de Casa no Campo)
Olhei as árvores em volta, quase uma casa no campo. Olhei as pessoas cantando em coro. O autor daquela música de minha infância não sabia, talvez tenha sido apenas cortês com os rostos conhecidos solitários que precisaram passar uma data de família ali. Mas ele acabara de me lembrar que eu era um amigo da casa do campo, e se isso é possível ao ex garoto de subúrbio de BH, isso significava que meus sonhos podiam e deviam ser realizados, por mais distantes que um dia pareçam. O que me me fez relembrar, naquela tarde, do que o mesmo Zé havia me dito anos antes no Esfiha Imigrantes, sobre nada nem ninguém roubar meus talentos, especialmente por comparação com sua própria mediocridade. E não é que eu, dentro da baleia, estava permitindo isso justamente pelo coração?
"Não há nada que a gente não possa fazer, quando temos amigosEu tenho amigos. Poucos. Escolhidos. Importante escolher bem os amigos.Para vivê-los plenamente como a gente gosta"(Zé Rodrix, com Tavito, na introdução de "Casa No Campo")
Não há como descrever aqui o estado alterado de consciência, quase um satori, ágape, samadhi (risos) que adentrei durante AQUELA execução em particular de Casa No Campo, entre o verde do parque, sol de fim de tarde deixando tudo mais dourado ainda, as pessoas cantando em coro comigo e Tavito e, de algum modo, sentindo-se tão amigas também. EU PODIA. A criança de BH um dia pensou "gostaria de ser como um dos queridos amigos do do autor desta música", e receber este abraço musical entre uma paisagem verde e sorrisos, mais de 30 anos depois, me pareceu o próprio universo ou G.A.D.U. me relembrando, como o Zé sempre falava, que eu DEVERIA assumir a DIREÇÃO de minha vida e CONSTRUIR o futuro que eu deveria ter.
"Primo, não se esqueça: Os deuses das coincidências prestam muita atenção em quem presta atenção neles" (Zé Rodrix)
Em vez de retornar a ex, já saí dali de Itaquera direto para a casa de minha supervisora clínica junguiana, a @LiegeCampos, e comecei a trabalhar com ela as questões de dignidade e SEPARAÇÂO (poucos meses depois) que me levaram ao momento atual. ATUEI, e por isso, estou aqui. E o papel que eu começava a desempenhar, Zé Rodrix também já havia descrito bem:
Dentro da baleia mora mestre Jonasdesde que completou a maioridadea baleia é sua casa, sua cidadedentro dela guarda suas gravatas, seus ternos de linho
Dentro da baleia a vida é tão mais fácilnada incomoda o silêncio e a paz de Jonasquando o tempo é mal, a tempestade fica de foraa baleia é mais segura que um grande navio
e ele diz que se chama Jonase ele diz que é um santo homeme ele diz que mora dentro da baleia por vontade própriae ele diz que está comprometidoe ele diz que assinou papelque vai mantê-lo preso na baleia até o fim da vidaaté o fim da vida, até subir pro céu!
(Zé Rodrix, Mestre Jonas)
Entendi a lição daquela tarde, primo, e mais uma vez, você mudou minha vida. Saí da baleia, e assumi o PODER de minha vontade. Em poucos meses, tomei outros rumos, e o fim (fim?) dessa história conto melhor no meu relato "NAS ONDAS DE IEMANJÁ" (http://www.voadores.com.br/lazaro)
Mas o importante mesmo, para mim, foi sua metáfora depois do show:
"Primo, o mundo é um grande cinema Multiplex, com INFINITAS salas, cadeiras confortáveis, outras nem tanto. A maioria fica estática assistindo filmes péssimos, comendo pipoca, dramalhões, casamentos, documentários sobre escritórios, só porque a cadeira é confortável. Não mudam de sala! Outros viciam em um estilo de filme e o repetem, em situações bem desconfáveis. O que se esquecem é que TODOS, TODOS, a qualquer momento, podemos nos levantar, mudar de cadeira e assistirmos - ou mesmo dirigirmos - coisa bem melhor." (Zé Rodrix, sobre escolhas, cocriação e multiverso)


LEI ROUANET

Outro dia, no Twitter, sem dar crédito, lancei algumas das críticas do primo à Lei Rouanet. Perdi seguidores, especialmente entre os amigos músicos. Preferi não dizer o autor, Zé Rodrix, porque os mesmos que vão a Brasília acusar - com razão - políticos - de corrupção e uso de passagens não raro são os mesmos que sacam o dinheiro do contribuinte para seus shows e filmes se tornarem uma espécie de estatal.
"Lei Rouanet é hipocrisia. "Não acredito que o dinheiro de TODOS deva servir para patrocinar a aventura pessoal de ALGUNS, e, quando isto se configura, eu saio fora. Investimento deve ser feito com dinheiro real que não prejudique o essencial do país. Impostos devem ter fim específico, e os sustento da arte não é, a mer ver, uma destas essencialidades. Sempre fui um artista que não se privilegiou de nenhum tipo de ligação com estados e governos, em nome de minha própria LIBERDADE. Assim sendo, há que haver em mim algum respeito pelas coisas em que eu acredito. Se entrar nisto, estarei negando tudo que é a minha maneira de ser, pensar e agir. No Brasil de hoje, precisamos de investidores conscientes, e não, segundo minha maneira de ver a realidade, de utilizar de maneira equivocada o dinheiro público."
Fazer discurso é fácil, mas Zé foi o único que recusou / devolveu o dinheiro estatal (meu dinheiro, seu dinheiro), abandonando a produção milionária (às nossas custas) do espetáculo Rei Lagarto.http://brunogarschagen.com/2007/08/29/impressionante-musico-diz-xo-satanas-para-projeto-com-dinheiro-publico/


O PRIMO QUE NÃO CHEGOU A SER IRMÃO

Eu e o Zé tinhamos um certo amor de irmão - ou melhor, de primo - e um respeito mútuo desde que nos conhecemos. Alguém tão eclético, genial e rabugento quanto ele, bem mais experiente do que eu, dando toques precisos, e também convivendo diarimente por anos nos grupos http://groups.yahoo.com/group/hecate e meses no meu http://groups.yahoo.com/group/synth-br, foi, não tenho a menor dúvida, um presente do Grande Arquiteto do Universo para mim.
Pegando meu carro (deixado na UNIFai) para ir ao velório na Grande Loja da Liberdade, um ex-colega da Filosofia me encontrou na rua, e, não sei como, já sabia que eu era primo do Zé. Me deu os pêsames, e cumprimentou-me com os sinais de reconhecimento entre maçons. Disse para ele que eu não era, ele se surpreendeu. Já estou acostumado: minha forma particular de viver a ética e fraternidade já me pregou essa peça várias vezes nos 44 anos, sempre há irmão que, ao ver alguns de meus atos ou palavras, me confundem. Fiquei sem saber responder porque ainda eu não seria, e me lembrei que quem poderia dizer isso era justamente o elo faltante na corrente, que eu iria visitar naquele momento. Sinais. Respondi apenas que "não é o meu caminho", mas notei que isso só fazia sentido a 14 anos atrás, onde eu buscava mais o racional, hoje já satisfeito em sua gula, do que a interiorização, o simbólico e o ritual.
Tinhamos também, eu e o Zé, um projeto/esboço de livro de pesquisa histórica sobre o mito Paulo de Tarso ("alguém um dia tem que falar a verdade sobre esse sujeitinho", dizia Zé para mim). mas este terei que escrever só. O que não é cômodo, pois a popularidade do Zé era meu consolo diante das polêmicas que o livro certamente provocará. Mas o primo deixou sua contribuição nesse tema ao traduzir AS CHAVES DE HIRAM, e é hora de eu receber o bastão e fazer a minha parte, já que - o Zé me fez ver - nossos planos mútuos de deixar o planeta aos 86 anos de idade (eu) ou 90 (ele) podem sofrer bruscas interrupções.


CASA NO CAMPUS

30 anos depois, descobri que a casa no campo do primo era bastante urbana. Ficava logo ali atrás da Dr. Arnaldo e Av. Sumaré, pertinho da MTV, no lado oposto da PUC. Rua tranquila no meio do caos urbano, mas não fazia diferença: tudo o que Zé compartilhou conosco, da Casa no Campo e Mestre Jonas ao Boa Noite Cinderela, dos sintetizadores vanguardistas a la Yes no disco do Secos & Molhados (seu nome foi omitido do disco pela "egotrip de João Ricardo", expressão do Zé) à volta do Trio, passando pelo Joelho de Porco - e, principalmente, das lições de vida, fazia com que aquele cenário descrito pela canção com o parceiro Tavito nos alcançasse em qualquer cidade. Quantos que jamais o conheceram não mudaram suas vidas, embalados pela música, apenas para tentar ter um canto tranquilo e simples, com qualidade de vida, entre amigos e um filho de cuca legal?


LIVROS QUE NOS ESCREVEM

Lembro, por fim, da @CamillaAvella (foto) dizendo pro Zé, há alguns meses atrás, no Esfiha Imigrantes, após mais um curso nosso: "Zé, fala para o Lázaro escrever um livro" (Sobre os temas do curso). E o Zé, sempre sábio: "Mas Cammy, o primo já está escrevendo seu livro há tempos, em cada dia que viveu, em cada aula como essa que deu. Eu também escrevi meus livros assim, vivendo, durante 60 anos. Um dia apenas as idéias e personagens me possuiriam, e tive que colocá-los no papel. Essa é a parte menor de todo o processo. Um bom escritor se faz muito antes de pensar em pegar no papel".
Espero que tenha razão, Zé. Tenho tentado "escrever" meu livro, bem. Vou recolher as lições dessa sua passagem, as setas do caminho de volta que deixou por aqui, e traçar com carinho meus passos para os anos que vem a seguir.


PREMONIÇÕES, SINAIS


7:00 da manhã, acordo, a porta do guarda-roupas está aberta. Dentro, vejo um crânio, na parte superior de meus livros de filosofia. Tento ajustar o olhar, e ele se torna uma cabeça dourada de Nefertiti. E em seguida, a caveira morta - que também é uma cabeça dourada viva - é fechada pela porta de madeira do guardaroupa, como se fosse um caixão. Comento a visão, acordo de vez. As 8:00, o Frank me dá a notícia. Só mais tarde, depois da primeira versão desse texto já escrita e distribuída, é que a @CamillaAvella me relembrou da visão profética da Nefertiti e caveira pela manhã.Anteontem, quarta, rearrumando meus livros, peguei a Trilogia do Templo, do Zé Rodrix. Estive em todos os lançamentos e leituras ao vivo, mas não a li toda. Peguei e, profético, lembrei: TENHO QUE LER.Anteontem, quarta, conversando na antesala da clínica em que atendo, relembrei com um paciente de outro psicanalista boa parte dessas histórias que contei, sobre o Zé. Eu pressentia.Ontem, não sabemos porquê, a @CamillaAvella estava com a câmera filmadora na mão, olhando e editando, após meses e meses sem tocar, as várias fitas de meu último curso de Tarot, Cabala e Sonhos com o @ZeRRodrix. Naquele mesmo instante da noite, o primo estava prestes a passar pela Grande Iniciação.Há uma semana, tive um sonho de morte, de se dissolver no todo. Conversei com algumas pessoas. Camilla, preocupada com possíveis riscos à minha saúde ou vida (ela conhece meus sonhos, quando avisam de algo, sabia porque deveria temer), perguntou se não poderia ser morte de algo simbólico e psíquico meu, uma transição. Repondi na quarta, enfático, que NÃO. Atendo 30 pacientes por semana, lido com simbolismo, transformação e Jung, e infelizmente, lembrei quase ríspido a ela, aquele era um sonho de MORTE. Camilla chorou bastante, na segunda, quarta e quinta, por esse sonho. Por isso choramos menos no velório. Isso tudo me deixou bastante tranquilo, pois algo que tenha tantos sinais, só pode ser uma passagem muito bem planejado, conduzido e inevitável. Uma conquista, talvez.Ontem, indo para a clínica, e lembrando de um paciente que agora está retomando antigas amizades, me lembrei que faz tempo que não vejo o Zé (não realizei meu curso de Maio no IPPB, onde ele CERTAMENTE estaria presente, como em todo ano), e que não posso deixar as curvas do passado perderem amizades preciosas como as do Zé Rodrix e as do Fábio "Bi" Ramos, guitarrista de minha antiga banda. Decidi ONTEM, quinta, ligar para o Zé e para o Bi. Porque sempre decidimos que "vamos ligar amanhã" nessas horas, e não "agora"? Era o convite do Self para que eu me despedisse... e eu não o escutei. Menos de 12 horas depois do aviso, era tarde demais para ligar via celular.


AMANHÃ PODE SER TARDE DEMAIS. LITERAMENTE.


De todas essas premonições, ficou a lição de que um dia pode ser tarde demais quando se trata de reencontrar as pessoas que amamos, que nos amam ou mesmo que nos amaram, seja lá o que for que tenha nos afatado por meses e anos. Conversando com o Cronos (Marcelo Brasil) em volta do caixão, riamos de um amigo que não quis vir ao enterro, porque recentemente teve um desentendimento com o Zè em algum email de internet. Mas, oras, se você o admirava, de algum modo, era essa a chance de encará-lo, ainda que simbolicamente, resgatar a boa lembrança, e enviar as mágoas, perecíveis, para a cremação.
Amanhã, aprendi a duras penas nessa quinta e sexta, pode ser - literalmente - tarde demais. Vou enfim ligar para o Bi, pedir perdão mútuo, e re-valorizar os amigos-irmãos, enquanto estão aqui. :'-)
Aprendi (quase) tudo que trago de ecletismo eficiente com meu primo Zé Rodrix, exemplos e sacadas. Felizmente, nem tudo, já que uma vez, brincando como sempre, ele disse lá na Synth-BR que "nesses 30 anos de estrada, conheci algumas mulheres tão estranhas que algumas até tinham p.." :-)
(Opa. Ecletismo, pra mim tem limites, sem esse seu jingle "de mulher pra mulher"!)Procurarei guardar com muito carinho suas lições, e sempre que aplicável, eternizá-lo reproduzindo aquilo que minha competência permitir lembrar.
Parafraseando o que diz seu jingle pra Caixa:"Vai pra Akash você também" ;-)http://pt.wikipedia.org/wiki/Registros_Ak%C3%A1shicos

Siga em paz, Zé. Você FEZ a diferença por aqui.Obrigado por tudo, de coração.
Missão cumprida, se não comprida.
E dê um abraço em G.A.D.U.

Resumo a saudade e a lágrima (feliz) que escorre agora na lembrança de uma frase que você sempre, sempre, sempre nos dizia:
"Quando o discípulo está pronto, o mestre DESaparece" (Zé Rodrix)
Voe em paz.

Enquanto o mundo de Maya perde a forma
Zé se reencontra, em si
E é assim que, doravante
Ele sempre há de seguir!

(som de batidas do coração, a vida pulsa além do "fim" do último acorde)


Lázaro FreireTecladista, Psicanalista Transpessoal, Filósofo, Escritor, Voador, Engenheiro de Software, Herege, Cri-Crítico, ..., ..., etc, ..., e amigo-primo-fã do Mestre Zé.

http://twitter.com/lazarofreire

http://www.voadores.com.br/lazaro

--Lázaro Freire
lazarofreire@voadores.com.br