terça-feira, 9 de novembro de 2010
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SAMBA PEDE PASSAGEM - Luiz Carlos Sá
Há exatos quarenta e cinco anos atrás o recém batizado Grupo Mensagem (eu, Sidney Miller, Paulo Thiago, Marco Antonio Menezes e Soninha Ferreira) estreava no palco do Teatro Opinião, Rio de Janeiro – o que para nós equivalia à Broadway . Éramos simples coadjuvantes de um espetáculo musical chamado “Samba Pede Passagem”, idealizado e escrito por João das Neves, Armando Costa, Oduvaldo Viana Filho e Sergio Cabral, mas estávamos ao lado de Aracy de Almeida, Baden Powell, MPB4, Ismael Silva, Raul de Barros, Canhoto e seu regional e umas duas dezenas de sambistas e partideiros de raiz, em mais um delírio frutífero do incansável Grupo Opinião. Crus como um sushi, jovens como um Bourgogne, fomos literalmente lançados à presença das feras MPB da época como gladiadores no Coliseu, com a enorme diferença de que os leões eram nossos amigos, ou quem sabe, foram domados por nossa ingenuidade e vontade de aprender com aquilo que víamos no quadrilátero da arena histórica do teatro Opinião, foco de resistência cultural à ditadura - que ainda não mostrara seus piores dentes. No domingão, Pichin Plá, a diretora de produção, chegava com os envelopes de pagamento e nós achávamos que estávamos no Céu dos Jovens Artistas, recebendo para fazer a coisa que nos fazia sentir a vida em todo o seu esplendor, ou seja, tocar e cantar nossas próprias músicas para um público ávido de novidades.
No meio disso tudo – não me lembro bem, mas acho que o espetáculo durou uns três meses e acabou pela simples impossibilidade de pagar as trinta e uma pessoas que o compunham – aconteciam coisas hilárias que nós, lá de baixo dos nossos ainda não completos vinte anos, assistíamos com sentimentos que variavam do simples interesse à absoluta incompreensão do que realmente se passava.
O começo do espetáculo trazia uma entrada coletiva do elenco. Então todos nós trinta e uns nos acotovelávamos atrás da cortina e numa dessas entradas nossa primeira dama, a inefável, inimitável e insubstituível Aracy de Almeida – corram para a Wikipédia, sonsos! - soltou um formidável pum, bem ao lado da Soninha Ferreira, que por sua vez era nossa ingênua e protegida princesinha. Soninha, surpreendida pela – eh, informalidade...- de Aracy, arregalou dois belos olhos. Percebendo seu espanto, Aracy retrucou no ato:
- Tá olhando o quê, menina? Do que sai dentre as pernas eu só prendo neném!
De outra vez, o partideiro Padeirinho da Mangueira, que tocava uma percussão toda sua – faca raspando no prato de louça, acreditem - acabou quebrando uma lasca do prato e acertando a testa da Aracy, que sangrando do corte e percebendo rapidamente de onde viera a bala, atacou com fúria o pobre Padeirinho, em cena aberta:
- Ô Padeiro, enfia essa p... de prato no rabo, c...

Padeirinho da Mangueira
Essa era a Aracy. Não obstante sua discutível elegância feminina, ela recebia todas as noites na platéia a visita do General. Nós o chamávamos General, mas até hoje não sei se ele era Coronel ou Major ou o quê. Seu porte de legítimo R1 – logomarca identificativa dos militares da reserva – não negava a origem de anos de quartel. Ereto, sorridente e sempre bem disposto apesar da idade visivelmente adiantada, ele chegava cedo ao teatro, sentando-se sempre na mesma cadeira e aguardando a entrada de sua musa. Quando Aracy atacava “Feitio de Oração”, minha Noelina preferida, eu sempre arranjava um buraquinho na cortina da coxia para curtir a inesquecível expressão de enlevo do General. Um homem apaixonado é sempre uma coisa a observar. E Aracy, mulher a priori feia e desengonçada, merecia cada centímetro daquela atenção, porque ouvi-la cantar Noel era uma experiência extra sensorial. Lamento por aqueles que não viram , ou ouviram,isso. É como não ter visto Pelé jogando ao vivo.

Baden Powell chegava sempre virado de noitadas, manhadas e tardadas com Vinícius de Morais, seu e nosso poeta preferido. Numa dessas chegadas ele fez com que eu me sentasse a seu lado e me ensinou a tocar e cantar “Canto de Ossanha”, que recém compusera com Vinícius naquela mesma tarde. Claro que eu tremi e a custo consegui perseguir sua harmonia, ao mesmo tempo simples e intrincada. Depois ele chamou o resto do pessoal e organizou vocais e instrumentais. Naquela mesma noite tocamos a música em primeira mão, num deslumbrante coro de trinta e uma vozes de todas as origens, do morro a Ipanema.

E acha.
VIDA DE ARTISTA
luiz carlos sá