Haverá uma mesa de som, e o microfone estará aberto a manifestações, inclusive musicais, se for o caso.
segunda-feira, 25 de maio de 2009
MISSA DE 7° Dia por Zé Rodrix ( Rio de Janeiro)
Haverá uma mesa de som, e o microfone estará aberto a manifestações, inclusive musicais, se for o caso.
Uma última palavra sobre meu primo Zé Rodrix
"Enquanto o mundo perde a forma, Eu me encontro em mimE é assim que eu sempre vou seguir... meu coração!!!" (Zé Rodrix, em anúncio para a Chevrolet)
Eu era criança. Começo dos anos 70. No rádio cantavam "Uma casa no campo: onde eu possa guardar meus amigos, meus discos, meus livros... e nada mais". Menino urbano, filho único com poucos amigos, nunca esqueço: eu sempre pensava o quanto eram felizardos os amigos do autor daquela canção. Esqueci disso, aprendi a tocar e compor, peguei meu piano elétrico e meu violão, meu baixo e meu bandolim, e fui para a estrada. Aos 17, já tocava na Belo Horizonte 14Bisada dos anos 80, pós Tavitos e Clubes da Esquina. Minha vida seguiu. Voltarei às lembranças de menino, depois, ao longo desse relato.
"Eu tinha apenas 17 anos No dia em que saí de casa(E não fazem mais de 4 semanas que estou na estrada" )
PRIMO ZÉ TRINDADE
Não eramos primos de fato. Na verdade o Zé Rodrix (José Rodrigues Trindade) sempre chamou a mim (Lázaro Luiz Trindade Freire) de primo - desde o primeiro dia em que fomos apresentados, por sermos ambos de sobrenome Trindade (um sobrenome especial para ele, maçon), por nossas afinidades, por sermos tecladistas, multi-instrumentistas, escritores, espiritualistas, e pelos interesses de pesquisa, muitos, em comum.
Esta "primandade" rendeu frutos. Já a algum tempo, pelo menos uma vez por ano, ministravamos algum curso gratuito sobre esses temas, para platéias de 250 pessoas (casa cheia) no IPPB (http://www.ippb.org.br). Felizmente, gravei algumas dessas nossas palestas em vídeo; mas não os de Jesus Histórico, tema que nos uniu. Recentemente ele levara um CD de meu projeto musical-ocultista Naviterra, que nas letras fala dos elementos ocultistas e conscienciais que nos uniram, e combinavamos lançar. Bem feito para mim, outra vez. Eu e muitos discípulos, fizemos pouco, dependemos demais.
Meu "primo" era, como eu, interessados na psique humana. Não era psi, mas me contava sempre, orgulhoso, da sua filha que era, e discutíamos o enfoque clínico e o poder da palavra, a partir daí. Zé também era irônico, sarcástico, às vezes cruelmente desconstrutor; mas sem deixar de ser doce, humano e acessível, sempre que exigido assim. As listas em que as "coincidências" nos colocavam também falavam da afinidade: M-Música, Sintetizadores, Jesus Histórico, Ocultismo, Filosofia - e, mais recentemente, nosso amor comum por Donald Winnicott, Viktor Frankl e o sentido de existir. Não ouso me comparar em nada, mas é inegável que tinhamos coincidências demais, e se ele me via assim, e confio tanto em seu talento e juizo, devo aceitar a responsabilidade de ter algo de bom para repassar, também; pelo menos na falta dele. Afinal, era o próprio primo que me ensinou que "os deuses das coincidências prestam muita atenção a quem presta atenção neles".
Fomos descobrindo mais afinidades, e tenho orgulho em dizer que falar dos interesses dele é também falar de mim. Eramos também palestrantes interessados em temas ligados a Jesus Histórico, Simbologia, Ocultismo, Magia Mental, Sonhos e Tarot. Como não deu tempo dele me convidar para ser seu "irmão", e sobrinhos são os demolay, a afinidade enorme só podia fazer de mim um primo. Sempre nos tratamos e beijamos, mutua e fraternalmente, assim. Primo Lázaro, Primo Zé.
FOCO É PARA MEDÍOCRES
Num dia que MUDOU minha vida, após um desses cursos que ministramos sobre Jesus Histórico no IPPB, comiamos naquela barulhenta e deliciosa Esfiha Imigrantes: eu, Zé Rodrix, Olavo Borges, Adriana Splendore (da Rádio Mundial, que também trabalhou com o Zé e Cláudia Raia). Naquele dia, casa lotada, eu estava preocupado com o que seria o meu "foco" dentre tantas atividades distintas. O primo Zé, um generalista genial por definição, e que em muitos aspectos sempre foi um "pai" e exemplo para mim, fez um breve porém cirúrgico discurso a favor do generalismo inteligente que contrabalance e lance voz crítica a uma sociedade de especialistas medíocres. E me disse algo que JAMAIS esqueci, quase um pedido, um legado, que no dia soou para mim quase como uma daquelas frases que pais entregam para seus filhos no leito de morte:
"Primo, nunca se esqueça, esse discurso de 'foco' (numa atividade só) é para os medíocres. Nunca, nunca, nunca, mas nunca mesmo, permita que a mediocridade dos demais lhe roube NENHUM de seus talentos"
Poucos sabem, mas saí muito mexido daquela noite. Estava disposto a largar meus estudos de Jung, Psicanálise e Filosofia (hoje minha profissão), dedicar menos tempo à música, relegar a consciência crítica e estudos espiritualistas a um papel mais secundário e religioso, em favor de focar primeiro minha carreira de DBA e Eng de Software, constituir melhor algumas coisas materiais. E o Zé também me lembrou que, com a experiência, são os generalistas - como nós - que tinhamos a missão iniciática de proteger a vela da lucidez acesa em meio ao vendaval na escuridão. E que o dinheiro sempre seria apenas a consequência - inevitável, aliás - de qualquer trabalho bem planejado e bem realizado que NÃO o tivesse como motivação"
FUI LATINO AMERICANO, E VI QUE ERA ENGANO
Zé era (é) um cara engraçado. Preocupado com a mediocridade descompromissada do brasileiro, certa vez resolveu satirizá-la. Infelizmente, ele se esqueceu de pedir ao @Cardoso aquele cartaz de #SarcasmModeON. Zé achou que seria queimado na fogueira ao ironizar a falta de comprometimento das pessoas, numa época (30 anos atrás) bem menos tolerante do que os já intolerantes tempos atuais. Tomou um grande susto. Em vez das pessoas ficarem ofendidas, infelizmente os brasileiros estavam TÃO imbuidos daquele espírito que ele critivava, que a música virou um... um... SUCESSO! Já demos risada dessa história, e de um povo ("povinho de merda", segundo ele, abaixo) que se orgulha (?) quando se identifica com o "laissez-faire, laissez passer" de:
"Chego sempre atrasado Mas eu não corro perigoQuem devia dar o exemplo Chega atrasado comigoE (ainda) diz:Soy latino americanoE nunca me engano, e NUNCA me engano..."
Posteriormente, desiludido com a situação da América Latina, e com essa falta de consciência crônica, durante algum tempo o Zé deixou de cantar essa letra. Em shows trocava por "Fui latino americano, e vi que era engano, e vi que era engano". Mas depois, após o tempo necessário para que a sabedoria que a idade traga cores de realidade aos nossos ideais, voltou a cantar e dançar a letra original. Se temos que conviver com um esqueleto em nosso armário, é melhor que o ensinemos logo a dançar.
Suas gracinhas e críticas ao senso comum continuaram até o último momento. No caso, uma crítica a esses tempos narcisistas, e suas personagens que tornam-se ridículas ao avançarem na idade tentando negar, esteticamente, a sabedoria trazida pelo envelhecer:
Boa noite, "Cinderela"A sua cintura não é mais aquelaEu acho que você exagerou na mortadelaDevolve o silicone que eu te dei:Ele tá aí dentro que eu sei!Os sapatos de cristalEmbrulhados num jornalRememoram uns passadosCom muito menos assadosE o vestido da festaTão embolorado, atestaQue depois de tantos anosPrecisaria mais panos
As curvas dos teus quadrisQue um dia eu tanto quisDepois de tanta cervejaHoje ninguém mais desejaTentar a lipoaspiraçãoHoje não é mais soluçãoAté seus lábios carnudosFicaram reconchunchudos
Boa noite, "Cinderela"Devolve o silicone que eu te dei:Ele tá aí dentro que eu sei! :-)
UMA DOR CHAMADA ELIS
A morte de sua amiga Elis Regina, naquelas condições, foi um golpe que o "primo" jamais superou. Drogas, sentido, sucesso, dramas pessoais... O que estavam todos fazendo com suas vidas? Como usamos o tempo que nos resta no intuito de darmos um SENTIDO ao nosso existir?
Um dos maiores gênios compositores do país, alguém que teria marcado muito mais a MPB, naquele momento, simplesmente parou precocemente com os palcos, com todo e qualquer show seu, carreira solo, e tudo o que estivesse ligado a esse mundo de aparências. Não que tenha aposentado sua genialidade, ao contrário. Criou, dirigiu, escreveu, compôs, conscientizou, criticou... Não há quem não conheça seu studio no meio musical paulistano. Mas a carreira musical que levaria seu nome, não mais.
O que fazemos com o resto de nossas vidas, quando alguém com quem contavamos por muito tempo nos deixa precocemente? Elis não mais gravaria o Zé, é claro. Mas ele produziu sentido como nunca, a partir daí. Nunca mais houve um dia em que não acendesse nenhuma vela no coração de alguém.
Conversando no velório, entendemos que passamos pelo mesmo dilema. Ele não mais nos produzirá em um amanhã. Encerra-se aqui o projeto que eu e ele vinhamos esboçando - há tempo demais - de um livro comum sobre Jesus Histórico. Zé nos deixa essa pergunta incômoda - inúmeros talentos que descobriu, em várias áreas, de um certo modo acomodaram sob suas asas, deixando para o amanhã. Tenho a forte impressão de que ele, em algum lugar, está rindo e esfregando as mãos, iniciaticamente, ao ler comigo essas linhas. É a nossa vez de somarmos os fragmentos de talentos que ele depositou ou viu em cada um de nós, para vermos se, todos somados, podemos chegar pelo menos perto do que ele fazia sozinho, deixando sua luz brilhar por aqui um pouco mais.
"SPREMO" MUSICAL
Após o choque da morte da Elis, foram 20 anos de dor e amputação, traumática, consciente, até que seus irmãos Sá e Guarabira o convencessem a retomar o trio com maior sucesso de vendas em todas as lojas maçônicas do Brasil (rs). Já seu trabalho solo, ensaiou retornos, nunca com reconhecimento à altura de seu talento. Eu e o Dudu Burton (aqui da Voadores) tivemos a honra de estarmos presentes no pocket show jazzístico em que o Zé enfim anunciou seu retorno, nos porôes do Supremo Musical, da Oscar Freire. O local era tão pequeno, apertado e restrito que o Zé, sacana, ironizou dizendo que deveriam chamá-lo de "(e)Spremo" Musical. Não me lembro de já ter ouvido, na vida, um show tão bom. Jazz tocado com escovinha na bateria, baixo acústico e piano de calda. Jazz de alta qualidade, altíssima, tendo como ponto de partida as harmonias e letras como Mestre Jonas, Blues Riviera, Casa no Campo e demais. Com a catarse dos 20 anos de gozo acumulado, liberado entre amigos fiéis e queridos, em apenas 2 apresentaçõespouco mais que 25 pessoas por dia, desfilando 30 anos de carreira, de Som Imaginário a Sá, Rodrix e Guarabira, passando por Elis. Se alguém daqui esteve entre os 50 presentes, por favor me diga se estou exagerando ao incluir aquela entre uma das maiores genialidades que já vi a MPB produzir. E se alguém gravou, pelo amor de GADU, me mande uma cópia.
"Viver e ter sucesso é simples. Basta todos os dias você acender uma pequenina vela na câmera escura de seu coração. Ao encerrar sua vida inevitavelmente terá uma sala brilhante, iluminando a si e aos demais"
(Zé Rodrix, em curso de Magia Mental ministrado comigo no IPPB)
DVD 60 ANOS
No ano passado, eu e a @CamillaAvella atendemos ao chamado do primo Zé e descemos para Santos. Ele gostaria de gravar um DVD de comemoração dos seus 60 anos. Dessa vez, preferiu um formato Big Band, um jazz mais anos 30, com saxofonistas levantando e dançando. No camarim, abraçado a mim e à Camilla, ele comentava, feliz, suado, após pular muito, se vimos o pique que ele tinha aos 60 anos. (Camilla acaba de me ligar nesse momento, para me dar a notícia, que o Frank já havia me passado por torpedo beeem no comecinho da manhã). JAMAIS, JAMAIS, JAMAIS conseguiriamos imaginar que aquele que pulava e celebrava sua juventude nos deixaria menos de 1 ano depois. O show não foi para DVD, infelizmente, o Zé não gostou do material, perdemos o registro, talvez. Mas há fotos do show, bem como de um pocket show níver em que ele e Tavito fecharam um bar na 13 de Maio, em minha página principal do Orkut (Láz Freire). No fim de semana, pegarei alguns vídeos particulares meus do DVD jamais gravado e os colocarei no YouTube, como homenagem de despedida.
Quero contar um último caso em que o Zé foi parte marcante de minha vida, e indiretamente responsável (outra vez) por minhas decisões - e até relacionamento - atuais.
DIA DOS PAIS, 2006
Era um dia dos pais. Eu estava bem triste. Havia comentado com o Zé. Na época, fazia muito por uma família a quem eu amava, e faltava reciprocidade. Dois filhos, criados como meus, numa família repleta de adoções, onde os laços de afeto reais deveriam falar mais que os de sangue, indefiníveis. Mas além de esquecerem a "data", naquela manhã recebi uma série de agressões, injustas, simbólicas, de quem eu estava prestes a casar. Não vem ao caso os detalhes, exponho o mínimo apenas para contextualizar.
O fato é que o primo Zé, naquela tarde, faria um show com o trio (Sá, Rodrix & Guarabira) no SESC Itaquera (onde raios fica Itaquera?). Havia me convidado, eu não podia ir. Minha companheira - a mesma da injustiça - trabalharia no domingo, e eu precisaria fazer algumas coisas para ela, e ainda estar em horário récorde em seu trabalho, para a pegar. Mas com as injustiças da manhã, permiti focar em mim, ir ao show e rever amigos. Quem me conhece sabe que, naquela época, não era algo fácil ou simples para mim, naquela ocasião.
Após passar por Caruaru, Oiapoque, Bósnia e Zanzibar, finalmente cheguei em Itaquera, com o show já começado. Eu via sempre o Zé, mas nem me lembrava mais da última vez que tinha ouvisto (sic) o Sá & Guarabira. As canções me lembraram dos tempos em que eu aprendia a tocar violão, e que o conceito de liberdade era bem mais simples.
"Liberdade é uma calça velha, azul e desbotadaQue você pode usar do jeito que quiser..." (ZRx, dando o tom dos 70, para a USTop)
Catarse, eu sei. Mas cantei e berrei como nos anos 70. Um contraste estranho, eu acabara de deixar minha ex em meios pretensamente fashion de São Paulo, e me vestia como tal. E lá estava eu, de pé, no meio do público médio de Itaquera (sem preconceitos, mas a diferença de estilo e cores era evidente), recuperando em canções o pouco de dignidade que me restava.
O curioso no episódio é que cheguei tarde, e me postei ali perto do palco, na multidão. Perto de mim, na outra ponta, vi depois, estava o Tavito, da Rua Ramalhete, coautor de "Casa No Campo", outro que estava lá em BH nos anos 80, época em que eu vivia na, de e para a música. Também de pé, também em catarse. Show terminando, e acontece algo mágico, ali entre aquelas árvores todas, que transformou NOVAMENTE meu DIA e minha vida. O trio começará a tocar a última canção, acordes belos e conhecidos, o Zé vai para o microfone, e oferece o poutpourri que seguirá, em particular, a seus *amigos* Lázaro e Tavito, ali perto do palco. E o trio começa a tocar, como de hábito, Casa no Campo, Caçador de Mim e Espanhola. (Tavito é coautor de Casa no Campo)
Olhei as árvores em volta, quase uma casa no campo. Olhei as pessoas cantando em coro. O autor daquela música de minha infância não sabia, talvez tenha sido apenas cortês com os rostos conhecidos solitários que precisaram passar uma data de família ali. Mas ele acabara de me lembrar que eu era um amigo da casa do campo, e se isso é possível ao ex garoto de subúrbio de BH, isso significava que meus sonhos podiam e deviam ser realizados, por mais distantes que um dia pareçam. O que me me fez relembrar, naquela tarde, do que o mesmo Zé havia me dito anos antes no Esfiha Imigrantes, sobre nada nem ninguém roubar meus talentos, especialmente por comparação com sua própria mediocridade. E não é que eu, dentro da baleia, estava permitindo isso justamente pelo coração?
"Não há nada que a gente não possa fazer, quando temos amigosEu tenho amigos. Poucos. Escolhidos. Importante escolher bem os amigos.Para vivê-los plenamente como a gente gosta"(Zé Rodrix, com Tavito, na introdução de "Casa No Campo")
Não há como descrever aqui o estado alterado de consciência, quase um satori, ágape, samadhi (risos) que adentrei durante AQUELA execução em particular de Casa No Campo, entre o verde do parque, sol de fim de tarde deixando tudo mais dourado ainda, as pessoas cantando em coro comigo e Tavito e, de algum modo, sentindo-se tão amigas também. EU PODIA. A criança de BH um dia pensou "gostaria de ser como um dos queridos amigos do do autor desta música", e receber este abraço musical entre uma paisagem verde e sorrisos, mais de 30 anos depois, me pareceu o próprio universo ou G.A.D.U. me relembrando, como o Zé sempre falava, que eu DEVERIA assumir a DIREÇÃO de minha vida e CONSTRUIR o futuro que eu deveria ter.
"Primo, não se esqueça: Os deuses das coincidências prestam muita atenção em quem presta atenção neles" (Zé Rodrix)
Em vez de retornar a ex, já saí dali de Itaquera direto para a casa de minha supervisora clínica junguiana, a @LiegeCampos, e comecei a trabalhar com ela as questões de dignidade e SEPARAÇÂO (poucos meses depois) que me levaram ao momento atual. ATUEI, e por isso, estou aqui. E o papel que eu começava a desempenhar, Zé Rodrix também já havia descrito bem:
Dentro da baleia mora mestre Jonasdesde que completou a maioridadea baleia é sua casa, sua cidadedentro dela guarda suas gravatas, seus ternos de linho
Dentro da baleia a vida é tão mais fácilnada incomoda o silêncio e a paz de Jonasquando o tempo é mal, a tempestade fica de foraa baleia é mais segura que um grande navio
e ele diz que se chama Jonase ele diz que é um santo homeme ele diz que mora dentro da baleia por vontade própriae ele diz que está comprometidoe ele diz que assinou papelque vai mantê-lo preso na baleia até o fim da vidaaté o fim da vida, até subir pro céu!
(Zé Rodrix, Mestre Jonas)
Entendi a lição daquela tarde, primo, e mais uma vez, você mudou minha vida. Saí da baleia, e assumi o PODER de minha vontade. Em poucos meses, tomei outros rumos, e o fim (fim?) dessa história conto melhor no meu relato "NAS ONDAS DE IEMANJÁ" (http://www.voadores.com.br/lazaro)
Mas o importante mesmo, para mim, foi sua metáfora depois do show:
"Primo, o mundo é um grande cinema Multiplex, com INFINITAS salas, cadeiras confortáveis, outras nem tanto. A maioria fica estática assistindo filmes péssimos, comendo pipoca, dramalhões, casamentos, documentários sobre escritórios, só porque a cadeira é confortável. Não mudam de sala! Outros viciam em um estilo de filme e o repetem, em situações bem desconfáveis. O que se esquecem é que TODOS, TODOS, a qualquer momento, podemos nos levantar, mudar de cadeira e assistirmos - ou mesmo dirigirmos - coisa bem melhor." (Zé Rodrix, sobre escolhas, cocriação e multiverso)
LEI ROUANET
Outro dia, no Twitter, sem dar crédito, lancei algumas das críticas do primo à Lei Rouanet. Perdi seguidores, especialmente entre os amigos músicos. Preferi não dizer o autor, Zé Rodrix, porque os mesmos que vão a Brasília acusar - com razão - políticos - de corrupção e uso de passagens não raro são os mesmos que sacam o dinheiro do contribuinte para seus shows e filmes se tornarem uma espécie de estatal.
"Lei Rouanet é hipocrisia. "Não acredito que o dinheiro de TODOS deva servir para patrocinar a aventura pessoal de ALGUNS, e, quando isto se configura, eu saio fora. Investimento deve ser feito com dinheiro real que não prejudique o essencial do país. Impostos devem ter fim específico, e os sustento da arte não é, a mer ver, uma destas essencialidades. Sempre fui um artista que não se privilegiou de nenhum tipo de ligação com estados e governos, em nome de minha própria LIBERDADE. Assim sendo, há que haver em mim algum respeito pelas coisas em que eu acredito. Se entrar nisto, estarei negando tudo que é a minha maneira de ser, pensar e agir. No Brasil de hoje, precisamos de investidores conscientes, e não, segundo minha maneira de ver a realidade, de utilizar de maneira equivocada o dinheiro público."
Fazer discurso é fácil, mas Zé foi o único que recusou / devolveu o dinheiro estatal (meu dinheiro, seu dinheiro), abandonando a produção milionária (às nossas custas) do espetáculo Rei Lagarto.http://brunogarschagen.com/2007/08/29/impressionante-musico-diz-xo-satanas-para-projeto-com-dinheiro-publico/
O PRIMO QUE NÃO CHEGOU A SER IRMÃO
Eu e o Zé tinhamos um certo amor de irmão - ou melhor, de primo - e um respeito mútuo desde que nos conhecemos. Alguém tão eclético, genial e rabugento quanto ele, bem mais experiente do que eu, dando toques precisos, e também convivendo diarimente por anos nos grupos http://groups.yahoo.com/group/hecate e meses no meu http://groups.yahoo.com/group/synth-br, foi, não tenho a menor dúvida, um presente do Grande Arquiteto do Universo para mim.
Pegando meu carro (deixado na UNIFai) para ir ao velório na Grande Loja da Liberdade, um ex-colega da Filosofia me encontrou na rua, e, não sei como, já sabia que eu era primo do Zé. Me deu os pêsames, e cumprimentou-me com os sinais de reconhecimento entre maçons. Disse para ele que eu não era, ele se surpreendeu. Já estou acostumado: minha forma particular de viver a ética e fraternidade já me pregou essa peça várias vezes nos 44 anos, sempre há irmão que, ao ver alguns de meus atos ou palavras, me confundem. Fiquei sem saber responder porque ainda eu não seria, e me lembrei que quem poderia dizer isso era justamente o elo faltante na corrente, que eu iria visitar naquele momento. Sinais. Respondi apenas que "não é o meu caminho", mas notei que isso só fazia sentido a 14 anos atrás, onde eu buscava mais o racional, hoje já satisfeito em sua gula, do que a interiorização, o simbólico e o ritual.
Tinhamos também, eu e o Zé, um projeto/esboço de livro de pesquisa histórica sobre o mito Paulo de Tarso ("alguém um dia tem que falar a verdade sobre esse sujeitinho", dizia Zé para mim). mas este terei que escrever só. O que não é cômodo, pois a popularidade do Zé era meu consolo diante das polêmicas que o livro certamente provocará. Mas o primo deixou sua contribuição nesse tema ao traduzir AS CHAVES DE HIRAM, e é hora de eu receber o bastão e fazer a minha parte, já que - o Zé me fez ver - nossos planos mútuos de deixar o planeta aos 86 anos de idade (eu) ou 90 (ele) podem sofrer bruscas interrupções.
CASA NO CAMPUS
30 anos depois, descobri que a casa no campo do primo era bastante urbana. Ficava logo ali atrás da Dr. Arnaldo e Av. Sumaré, pertinho da MTV, no lado oposto da PUC. Rua tranquila no meio do caos urbano, mas não fazia diferença: tudo o que Zé compartilhou conosco, da Casa no Campo e Mestre Jonas ao Boa Noite Cinderela, dos sintetizadores vanguardistas a la Yes no disco do Secos & Molhados (seu nome foi omitido do disco pela "egotrip de João Ricardo", expressão do Zé) à volta do Trio, passando pelo Joelho de Porco - e, principalmente, das lições de vida, fazia com que aquele cenário descrito pela canção com o parceiro Tavito nos alcançasse em qualquer cidade. Quantos que jamais o conheceram não mudaram suas vidas, embalados pela música, apenas para tentar ter um canto tranquilo e simples, com qualidade de vida, entre amigos e um filho de cuca legal?
LIVROS QUE NOS ESCREVEM
Lembro, por fim, da @CamillaAvella (foto) dizendo pro Zé, há alguns meses atrás, no Esfiha Imigrantes, após mais um curso nosso: "Zé, fala para o Lázaro escrever um livro" (Sobre os temas do curso). E o Zé, sempre sábio: "Mas Cammy, o primo já está escrevendo seu livro há tempos, em cada dia que viveu, em cada aula como essa que deu. Eu também escrevi meus livros assim, vivendo, durante 60 anos. Um dia apenas as idéias e personagens me possuiriam, e tive que colocá-los no papel. Essa é a parte menor de todo o processo. Um bom escritor se faz muito antes de pensar em pegar no papel".
Espero que tenha razão, Zé. Tenho tentado "escrever" meu livro, bem. Vou recolher as lições dessa sua passagem, as setas do caminho de volta que deixou por aqui, e traçar com carinho meus passos para os anos que vem a seguir.
PREMONIÇÕES, SINAIS
7:00 da manhã, acordo, a porta do guarda-roupas está aberta. Dentro, vejo um crânio, na parte superior de meus livros de filosofia. Tento ajustar o olhar, e ele se torna uma cabeça dourada de Nefertiti. E em seguida, a caveira morta - que também é uma cabeça dourada viva - é fechada pela porta de madeira do guardaroupa, como se fosse um caixão. Comento a visão, acordo de vez. As 8:00, o Frank me dá a notícia. Só mais tarde, depois da primeira versão desse texto já escrita e distribuída, é que a @CamillaAvella me relembrou da visão profética da Nefertiti e caveira pela manhã.Anteontem, quarta, rearrumando meus livros, peguei a Trilogia do Templo, do Zé Rodrix. Estive em todos os lançamentos e leituras ao vivo, mas não a li toda. Peguei e, profético, lembrei: TENHO QUE LER.Anteontem, quarta, conversando na antesala da clínica em que atendo, relembrei com um paciente de outro psicanalista boa parte dessas histórias que contei, sobre o Zé. Eu pressentia.Ontem, não sabemos porquê, a @CamillaAvella estava com a câmera filmadora na mão, olhando e editando, após meses e meses sem tocar, as várias fitas de meu último curso de Tarot, Cabala e Sonhos com o @ZeRRodrix. Naquele mesmo instante da noite, o primo estava prestes a passar pela Grande Iniciação.Há uma semana, tive um sonho de morte, de se dissolver no todo. Conversei com algumas pessoas. Camilla, preocupada com possíveis riscos à minha saúde ou vida (ela conhece meus sonhos, quando avisam de algo, sabia porque deveria temer), perguntou se não poderia ser morte de algo simbólico e psíquico meu, uma transição. Repondi na quarta, enfático, que NÃO. Atendo 30 pacientes por semana, lido com simbolismo, transformação e Jung, e infelizmente, lembrei quase ríspido a ela, aquele era um sonho de MORTE. Camilla chorou bastante, na segunda, quarta e quinta, por esse sonho. Por isso choramos menos no velório. Isso tudo me deixou bastante tranquilo, pois algo que tenha tantos sinais, só pode ser uma passagem muito bem planejado, conduzido e inevitável. Uma conquista, talvez.Ontem, indo para a clínica, e lembrando de um paciente que agora está retomando antigas amizades, me lembrei que faz tempo que não vejo o Zé (não realizei meu curso de Maio no IPPB, onde ele CERTAMENTE estaria presente, como em todo ano), e que não posso deixar as curvas do passado perderem amizades preciosas como as do Zé Rodrix e as do Fábio "Bi" Ramos, guitarrista de minha antiga banda. Decidi ONTEM, quinta, ligar para o Zé e para o Bi. Porque sempre decidimos que "vamos ligar amanhã" nessas horas, e não "agora"? Era o convite do Self para que eu me despedisse... e eu não o escutei. Menos de 12 horas depois do aviso, era tarde demais para ligar via celular.
AMANHÃ PODE SER TARDE DEMAIS. LITERAMENTE.
De todas essas premonições, ficou a lição de que um dia pode ser tarde demais quando se trata de reencontrar as pessoas que amamos, que nos amam ou mesmo que nos amaram, seja lá o que for que tenha nos afatado por meses e anos. Conversando com o Cronos (Marcelo Brasil) em volta do caixão, riamos de um amigo que não quis vir ao enterro, porque recentemente teve um desentendimento com o Zè em algum email de internet. Mas, oras, se você o admirava, de algum modo, era essa a chance de encará-lo, ainda que simbolicamente, resgatar a boa lembrança, e enviar as mágoas, perecíveis, para a cremação.
Amanhã, aprendi a duras penas nessa quinta e sexta, pode ser - literalmente - tarde demais. Vou enfim ligar para o Bi, pedir perdão mútuo, e re-valorizar os amigos-irmãos, enquanto estão aqui. :'-)
Aprendi (quase) tudo que trago de ecletismo eficiente com meu primo Zé Rodrix, exemplos e sacadas. Felizmente, nem tudo, já que uma vez, brincando como sempre, ele disse lá na Synth-BR que "nesses 30 anos de estrada, conheci algumas mulheres tão estranhas que algumas até tinham p.." :-)
(Opa. Ecletismo, pra mim tem limites, sem esse seu jingle "de mulher pra mulher"!)Procurarei guardar com muito carinho suas lições, e sempre que aplicável, eternizá-lo reproduzindo aquilo que minha competência permitir lembrar.
Parafraseando o que diz seu jingle pra Caixa:"Vai pra Akash você também" ;-)http://pt.wikipedia.org/wiki/Registros_Ak%C3%A1shicos
Siga em paz, Zé. Você FEZ a diferença por aqui.Obrigado por tudo, de coração.
Missão cumprida, se não comprida.
E dê um abraço em G.A.D.U.
Resumo a saudade e a lágrima (feliz) que escorre agora na lembrança de uma frase que você sempre, sempre, sempre nos dizia:
"Quando o discípulo está pronto, o mestre DESaparece" (Zé Rodrix)
Voe em paz.
Enquanto o mundo de Maya perde a forma
Zé se reencontra, em si
E é assim que, doravante
Ele sempre há de seguir!
(som de batidas do coração, a vida pulsa além do "fim" do último acorde)
Lázaro FreireTecladista, Psicanalista Transpessoal, Filósofo, Escritor, Voador, Engenheiro de Software, Herege, Cri-Crítico, ..., ..., etc, ..., e amigo-primo-fã do Mestre Zé.
http://twitter.com/lazarofreire
http://www.voadores.com.br/lazaro
--Lázaro Freire
lazarofreire@voadores.com.br
domingo, 24 de maio de 2009
Zé Rodrix em Porto Alegre
Zé Rodrix morou em Porto Alegre – tocando, ensinando música e inclusive escrevendo para Zero Hora. Foi em 1969, quando ele e um grupo de amigos formaram o Grupo Revolucionário de Arte Livre (Gral) e também a banda de rock Primeira Manifestação da Peste. Em entrevistas, Rodrix disse que, na época, veio “ser hippie no Rio Grande do Sul”. O músico Mutuca, que fez amizade com a turma, lembra:
sábado, 23 de maio de 2009
Real Imaginário ( por Toninho Spessotto)
Num oceano de desilusão
Onde por qualquer coisa se mata um irmão
Numa carreira cheia de tropeços
Onde pra vencer paga-se o mais alto dos preços
Num mundo triste onde grandes amigos
Se vão sem aviso, sem rota, sem chão
Eu me convenço de que trago comigo
Um vazio enorme dentro do coração
Se a canção não tem mais alternativa
A não ser trazer à tona um triste dia sem sol
Se o verso teima em tornar cativa
A voz do amor como se apagasse um farol
Eu sigo aqui vivendo de lembranças
Trazendo no peito o rasgo da saudade
Sinto falta do meu lado criança
Em que tudo era regado a felicidade
O que foi feito da nossa juventude?
Pra onde foi a vontade de crescer?
Onde jogaram nossa inquietude
E a rebeldia que nos fazia viver?
Não sei a resposta, talvez esteja no vento
Que insiste em soprar lembranças do bom tempo
Mas sei que me resta o peso da ausência
E a falta que faz o despertar da consciência.
Amigos são a família que escolhemos
Já dizia o sábio mestre dos segredos da canção
Ele se foi somente roupa e casca
Ficou a impressionante marca do coração
De qualquer forma meu irmão de batalha
Ficamos nós à volta dessa fogueira
Vertendo a lágrima que pinga da calha
O som da falta que é tão verdadeira
Trilhando a estrada vamos nos reerguendo
Colhendo os frutos que a vida plantou
Somando os números e sobrevivendo
Tentando achar o que ainda restou
Tenha certeza meu amigo querido
Tua partida até trouxe sofrimento
Mas em nome de tanto amor vivido
Nós compreendemos a grandeza do momento
Reergueremos a irmandade algum dia
Reformaremos o estatuto da morte
Ela jamais nos tirará a alegria
Se tornará um elemento de sorte
Muito Obrigado pelos versos precisos
Muito Obrigado pelo acorde envolvente
Muito Obrigado pelos sonhos concisos
Muito Obrigado por viver com a gente
Só não esqueça que ficamos mais pobres
Só não nos deixe assim sem esperança
E nos ajude a voltar a ser nobres
Esteja sempre na nossa lembrança
Vamos seguindo pela estrada de flores
Tentando achar a explicação da verdade
Conseguiremos rever todas as cores
Reconstruir a voz da felicidade
Toninho Spessotto
23/5/2009, 15 horas e 13 minutos
Para o Zé ( de João Bani)
Meu último abraço ao Zé Rodrix ( Marcelo Tas)

Envio aqui o meu afeto e pêsames aos amigos e família do querido José Rodrigues Trindade.
Rodrix, além de músico, multiinstrumentista e compositor, foi autor de inúmeras trilhas sonoras da publidade e televisão brasileiras. Entre elas, a do Professor Tibúrcio, do Rá-Tim-Bum. Tive a alegria de trabalhar com ele na criação da "sala de aula virtual" que, após o "Olá Classe", respondia "Olá Professor Tibúrcio".
Que a alma criativa e generosa de Zé Rodrix descanse em paz e continue nos inspirando sempre.
“Zé da Roda com os carneiros solenes do céu”
A primeira vez que vi Zé Rodrix na minha vida foi em 1967 na Rua Rui Barbosa, no centro de Campina Grande, Paraíba, se bem que ainda não pessoalmente, mas, sim, na tela em preto e branco do televisor de casa, pela qual acompanhava com fanatismo os festivais de Música Popular Brasileira. Então, ele fazia parte do Momento 4uatro, que acompanhou Edu Lobo e Marília Medalha em Ponteio, a canção de Edu e José Carlos Capinam que venceu o III Festival de MPB, da Record.
Depois, no começo dos anos 70, quando me mudei para sua cidade natal, o Rio de Janeiro do Flamengo e da Mangueira, aprendi, cantando com ele, que “a palavra já morreu”, refrão de um sucesso do Som Imaginário. O conjunto (como se chamavam as bandas à época) acompanhava Gal Costa num show em São Paulo quando, enfim, nos conhecemos pessoalmente.
Fiel a seu espírito de revolucionário folgazão, no meio do espetáculo improvisava um inesperado solo de máquina de escrever. Um leitor, que não havia gostado nada daquilo nem muito menos de meu elogio ao desempenho dos artistas, impresso na Folha Ilustrada, da Folha de S. Paulo, me telefonou para dizer que o espetáculo era tão ruim que um dos acompanhantes da cantora baiana deixava de tocar para escrever uma carta.
Como o Brasil inteiro, aplaudi Elis Regina cantando Casa no campo, composição dele e de seu maior amigo, o mineiro Tavito, e batia palmas ao compasso da salsa no refrão de Soy latino-americano. Mas só nos apertaríamos as mãos graças à internet quando ele voltou a compor, ao considerar encerrada sua temporada de publicitário, na qual havia encantado o Brasil (e eu junto) com um longo jingle de um Chevrolet.
Passamos a frequentar aos sábados, a musa Júlia sempre ao lado dele, as livrarias da vida - a Azteca, nas Perdizes, a Boa Vista, na Faria Lima, e, finalmente, a da Vila, na Vila Madalena. Encantava a roda formada pelo romancista Humberto Mariotti, por Aquiles Reis, do MPB4, e por seu ídolo, o poeta Mário Chamie, contando casos do tempo da luta armada, da qual participara e que lhe servira de definitiva vacina contra quaisquer tentações totalitárias e estatizantes.
De volta à música pela internet, fazendo sucesso na literatura como autor de uma trilogia de romances sobre a construção do templo de Jerusalém, o Zé da Roda, como eu o chamava na livraria (sendo por ele chamado de Zé da Neuma), se havia tornado um inimigo figadal do financiamento público de obras de arte, por achar, com razão, que esta é a pior forma que os autoritários encontraram para abastardar a cultura.
Cultor da canção, como autor ou exegeta, pregava aos quatro cantos que esta sua forma capsular de expressão estética tinha mais valor que livros, quadros, concertos, filmes e peças teatrais, exatamente por ser completa em sua forma sintética de comunicação.
Solidário por vocação, Zé compôs sozinho e em parcerias e também cantou em bandos na condição de adolescente permanente: Joelho de Porco, com o sócio Tico Perkins, e, desde sempre, o trio de rock rural Sá, Rodrix e Guarabyra, cuja temporada de shows só foi interrompida pela visita da Indesejável das Gentes em seu refúgio no Sumaré, onde foi golpeado por um enfarte fulminante, ao lado de Júlia, como passou todos os dias dos últimos anos de sua vida.
O amigo generoso e atento continuará nos provocando e incentivando onde for que nos encontrarmos. O artista talentoso e gregário deixou sementes de canto na filha mais velha, Marya, e na caçula, Bárbara.
Mas ele sempre fará falta, ao encerrar, desta forma trágica, um ano de perdas, que decepou de minha vida as companhias de Toinho Alves (do Quinteto Violado), Walter Santos, J. B. Lemos, Tereza Sousa e Walter Silva Picapau.
Ao lado deles, na certa, ele agora tem um encontro marcado com um rebanho de carneiros solenes pastando nos jardins do céu.
José Nêumanne Pinto
(atendendo a um pedido de Julia Rodrix)
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Zé Rodrix - Velório
O Velório será na Rua São Joaquim, 138
quinta-feira, 21 de maio de 2009
NASCE UM NOVO SOM (Revista O Cruzeiro 1972)
Essa matéria foi originalmente publicada na Revista O Cruzeiro, um tradicional magazine semanal ( numa época Pré Caras, onde o conteúdo era importante!) .Garimpada pelo Sérgio de Carvalho, músico, pesquisador, cineasta e agitador cultural, nos foi "presenteada" justamente no dia em que celebrávamos seu aniversário, na primeira semana de maio.
SÁ, RODRIX & GUARABYRA
Nasce um Novo Som
Revista O Cruzeiro
03 de maio de 1972
Texto de Afrânio Brasil Soares e Fotos de Fernando Seixas
A reunião de três respeitáveis nomes da geração atual num trio – Sá, Rodrix & Guarabyra – está revolucionando nossa música e já se fala no advento de nova etapa, a do Rock Rural. Seu primeiro disco Passado, Presente, Futuro vem sendo amplamente divulgado e já se ensaia nas paradas de sucesso. O trio nasceu da necessidade que eles tinham de dar o tratamento que queriam às suas músicas, fugindo à comercialização fácil. Com o êxito alcançado, provaram que qualidade também vende!
Luiz Carlos Sá, José Rodrix e Gutemberg Guarabyra vinham, vez por outra, acontecendo na música. Ora nos Festivais, como no caso de Guarabyra com a vitória de Margarida, e de Rodrix, com Uma Casa no Campo, ora na regularidade com que tinham suas composições gravadas por cantores consagrados, como Nara, criando canções de Sá – seus nomes eram sempre lembrados em cada safra do ano.
Mas nenhuma explosão ou estouro, com a exceção de Guarabyra, ao vencer o Festival de 67, ocorrera. Em novembro do ano passado, um papo trivial entre os velhos amigos foi o responsável pelo acontecimento do momento – a reunião dos três compositores e cantores num trio.
A idéia era muito antiga, mas nunca vingou. Ela germinou desde os tempos do Gripo Manifesto que se reunia num boteco do Leme, do qual os três faziam parte. Profissionalizando-se, cada um seguiu o seu próprio destino e encaminhava suas músicas pelas vias normais, levando-as aos cantores que por elas se interessavam. Muitas vezes, reunidos, comentavam o tratamento que davam às suas canções, nem sempre do seu agrado. Até que chegou o dia do papo decisivo, na casa do Sá. Foi o ponto de partida para a gravação do LP Presente, Passado, Futuro, que está “estraçalhando” na praça e sendo amplamente divulgado em todos os meios de comunicação.
Segundo os artistas, a reunião deles num trio era uma fatalidade. Nos longos e velhos papos, seus gostos se encontravam em todas as discussões e comentários. De posse dos instrumentos, enquanto faziam pesquisas, havia como que uma mágica assimilação do gosto do outro no que concerne à harmonia e em certas ocasiões ocorriam improvisações magníficas. O convívio trabalhava suas vocações afins e eles sentiam que se completavam. Todos já tinham algum nome e eram respeitados entre os da nova geração. Não era necessário criar um título para o conjunto: seriam eles mesmos - Sá, Rodrix & Guarabyra.
A partir do nome do trio usaram de sinceridade em tudo. Nada de artifícios. Fazer e interpretar uma música que venha dos seus sentimentos, esmerar-se na qualidade e ser mais próximos deles mesmos constituiu o resumo de seus mandamentos, ainda que com isso prejudicassem a comercialização.
- “Não visamos ganhar dinheiro, mas fazer o que gostamos “(Guarabyra)
-“ A verdade porém, é que nosso público musical evoluiu muito nos últimos tempos e a aceitação de Passado, Presente, Futuro é a prova inconteste disso “( Sá).
-“Quando o disco saiu vários cantores meus amigos me perguntaram por que não lhes ofereci determinada música. Ofereci-a, sim, você é que não descobriu beleza nela e nem ao menos se lembra – é o comentário de Rodrix ao se referir à canção Hoje Ainda è Dia de Rock, uma das componentes do LP.
O Já Famoso Rock Rural
A Expressão Rock Rural popularizou-se rápido, é como vem sendo cognominada a música criada pelos três, onde a mesclagem do tratamento harmônico com a participação de instrumentos vários fez surgir algo de singular na evolução da nossa música. As letras são simples,mas não simplórias e a singeleza das imagens procede da pureza dos sentimentos dos artistas, todos vivamente impregnados do amor à terra e à natureza. Ligada a esse amor existe a experiência musical para burilar e purificar o som, enriquecido pelos recursos da nova técnica.
-“Não temos nenhum preconceito contra o que há de velho ou novo. Nosso compromisso é com a música. Não desprezamos a melodia, como damos enorme valor à harmonia e ao ritmo. Utilizamos a grande orquestra, quando o número exige, como podemos nos limitar a um só violão, se for ocaso. A liberdade de criação é muito importante para o nosso trabalho” (Rodrix)
Não há regularidade na interpretação das 11 canções do LP. Muito ao contrário, a característica é a diversificação do tratamento das músicas, onde os artistas se alternam nos instrumentos e na sua posição de canto. Aliás, está especificado ligeiramente na contracapa do disco. Tudo isso prova a identificação entre eles o que resultou num magnífico trabalho.
Sá, Rodrix & Guarabyra ao se reunirem em trio, já não são apensa Sá, Rodrix e Guarabyra isoladamente. Se na unidade, já eram respeitados, conjuminados formam uma força na área em que transitam. O primeiro resultado aí está: o disco sendo vendido a rodo em todas as principais praças do país e muitas de suas músicas, despercebidas pelos colegas anteriormente, são agora solicitadas para gravação.
Na crista da onda como se encontram, as solicitações já começam e suas aparições na TV já foram de imenso agrado. Nestes dias está sendo vendido um compacto do Trio que traz dois hinos evangélicos estilizado em ritmo popular, arranjo que fez grande sucesso quando lançado no programa Flávio Cavalcanti. Já cogitam um show em maio.
Sem dúvida aguardam o conseqüente sucesso financeiro, embora o dinheiro não seja o essencial para eles, como declararam. A importância do dinheiro que virá está diretamente ligada ao investimento que fizeram para lançar-se no trabalho do LP, pois abandonaram todos os outros compromissos profissionais durante 3 meses e para subsistirem tiveram ate que vender seus automóveis.
Mas valeu a pena o sacrifício. Presente, Passado e Futuro, além de seu excelente tratamento e sua esmerada qualidade, ainda terá o valor de relíquia para os colecionadores de amanhã: foi o primeiro disco do famoso conjunto SÁ,RODRIX & GUARABYRA.
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Palestra/Show de Zé Rodrix - Boxset da Trilogia
A "show-lestra" é uma mescla de palestra e show, onde Zé Rodrix fala um pouco sobre sua vida privada, profissional ( como músico, publicitário, ator, diretor e escritor) e sobre a maçonaria, tema sobre o qual discorre a Trilogia. É muito leve e divertida, pois é pontuada por canções que marcaram sua vida, desde Ponteio ( com o Momento4) , até Jesus Numa Moto (SR&G), passando por seus clássicos ( Soy latino, p.ex) e temas mais recentes.
Uma quarta de sol, céu azul e limpo marcou o dia, e à noite rumamos, direto de Vargem Grande para o Leblon! Lá encontramos com Zé Rodrix e outros amigos da lista de discussão M-Música. Seus ex colegas de Colégio de Aplicação também estavam lá. Irmãos da Maçonaria, curiosos , passantes interessados em conhecer um pouco mais sobre Zé Rodrix, completavam a platéia.
Zé Rodrix segura o CD e o DVD recém lançados de Villas, gravado em janeiro de 2008.
O Momento4 (Ricardo Villas, Maurício Maestro, David Tygel e Zé Rodrix) foi reunido especialmente para a gravação do DVD, recriando um momento mágico com Ponteio, a canção defendida por Edu Lobo, Marília Medalha e o Momento4 no Festival da Canção de 1967.
quarta-feira, 13 de maio de 2009
Shows no Rio de Janeiro (CCBB - Projeto Rock Rural)
Já o show da tarde prometia: após perderem-se no Centro da Cidade atrás do restaurante favorito, um curto período de descanso e mais entrevistas ( rádio e TV ), já estavam mais aquecidos para o segundo tempo de jogo! Começou realmente aquecido: até o último segundo ainda havia pessoas buscando ingressos!
quinta-feira, 30 de abril de 2009
PARANAPIACABA
Pois naquele domingo os fantasmas estavam todos em harmonia: o show transcorreu na maior paz, a chuva esperou até que acabasse, que os equipamentos fossem desmontados, e aí caiu caudalosa, com a neblina cobrindo a todos!
O show foi bastante animado, com alguns membros de moto clubes que tradicionalmente se encontram por lá, aproveitando as lindas trilhas que Paranapiacaba oferece. Muitos fãs, amigos e os familiares do Trio faziam parte do imenso grupo que acorreu até a Vila, cerca de 60kms da Capital.
Logo após o show, Luiz Carlos Sá, Zé Rodrix & Gutemberg Guarabyra foram convidados a conhecer o stand a Cooperativa de Produtores de Cambuci, onde provaram a famosa cachaça de Cambuci!
quinta-feira, 16 de abril de 2009
UM CORAÇÃO AMERICANO
Zé Rodrix, -, Glaucia Nasser, Tavito, Andrea Estanislau e Alaíde CostaUM CORAÇÃO AMERICANO (35 ANOS DO CLUBE DA ESQUINA) é o nome do livro da jornalista e designer mineira Andrea Estanislau, lançado ontem em Sâo Paulo, e com lançamento no Rio de Janeiro marcado para maio próximo.
Como está no subtítulo, o livro conta os bastidores da gravação do lendário disco Clube da Esquina, e vem com cifras originais, fotos inéditas e outros detalhes que farão a alegria dos fãs mais dedicados e servirão de fonte de pesquisa para as novas gerações, que estão descobrindo o Clube recentemente!
Julia, Marlene , Tavito e Glaucia NasserO lançamento, no SESC PINHEIROS, contou com as presenças de Alaíde Costa, Glaucia Nasser, Tavito, Zé Rodrix e os amigos citados Cris e Marcos Maccarini e Maria Valéria Bethonico.
No dia seguinta ao Llançamento Andrea esteve no Programa Todo Seu, do Ronnie Von, na TV Gazeta, para falar sobre seu livro:
http://www.youtube. com/watch? v=9UojfO1w9rM
Fotos: Marlene Alves


