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segunda-feira, 28 de abril de 2008

Entrevista do Zé Rodrix para o Vagalume

Novíssima entrevista do Zé Rodrix para o jornalista musical Leandro Saueia, realizada em março, em Santos, onde o Zé apresentava seu show "As CANÇÕES":


O nome de Zé Rodrix pode não significar muito para os mais jovens. Afinal há mais de vinte e cinco anos ele não lança um disco solo. Mas basta falar de algumas de suas músicas que a memória provavelmente será ativada.

Zé Rodrix

Rodrix apareceu para o grande público em 1967 ao acompanhar ao lado do Momento Qu4tro Edu lobo e Maria Medalha em Ponteio no Festival da Record (“quem me dera agora eu tivesse uma viola pra cantar”). Mas foi nos anos 70 que ele deixou sua marca mais forte na nossa música. Foram anos de muita produtividade que incluíram o grupo Som imaginário, os fundamentais Sá, Rodrix e Guarabyra, verdadeiros criadores do country/folk rock legitimamente brasileiro (ou melhor dizendo, do rock rural) e uma carreira solo não menos brilhante que teve de tudo um pouco: baladas confessionais ao piano, rock jazzificado, pop, e música latina. São dele canções como Casa no Campo (em parceria com Tavito, imortalizada por Elis Regina), Mestre Jonas ou Soy latino Americano.Nos anos 80 e 90 sentindo o clima pesando ele abandonou a carreira e passou a se dedicar somente á publicidade. Responsável por alguns jingles de enorme sucesso (campanhas para Marisa, Chevrolet, Extra ou Fininvest comprovam). Em 2001 Zé aceitou um convite para se reunir com os antigos companheiros Sá e Guarabira no terceiro Rock in Rio e desde então não se separaram mais. Se sentindo novamente confiante, Rodrix agora resolveu reativar sua carreira solo e o fez em grande estilo, armando um show em que se apresenta ao lado de uma big band e toca músicas desses mais de 40 anos de carreira. Foi no dia da estréia do show (que vai virar cd e dvd) que falamos com ele.

Entrevista

Você está comemorando 40 anos de carreira. Com a gravação de um e cd e dvd ao vivo. Queríamos saber mais desse projeto.

Eu já tinha há muito tempo um sonho de fazer um show assim, com uma big band. Um amigo, o (compositor santista) Sonekka, me colocou em contato com o pessoal do Sesc de Santos que curtiu a idéia.Para esse show eu fiz um levantamento do meu repertório velho, novo e semi-novo e vi que essas canções contam não só a minha história como também me dão a oportunidade de dizer o que eu penso sobre várias coisas.

Nesses anos em que ficou "parado" nem show você fez?

Não. Quer dizer, a gente fazia umas brincadeiras com o Joelho de Porco, mas pra mim aquilo não dava pra considerar trabalho. (Rodrix se juntou ao grupo paulistano em meados dos anos 80). Esse tempo todo eu fiquei trabalhando na publicidade, o que para mim era ótimo.

Como anda o Sá, Rodrix e Guarabyra?

A gente continua na estrada e estamos preparando um novo cd de inéditas pra sair em agosto.
Vamos tentar passar a limpo os seus mais de 40 anos de carreira.

Para começar fale sobre o seu primeiro grupo o Momento Quatro.

Nós éramos um sexteto que cantava muita música folk americana e brasileira. Depois começamos a compor e queríamos mostrar as nossas músicas. A gente cantava mais para mostrar as canções para quem se interessasse em gravá-las. Um dia o Aloysio Oliveira (do selo Elenco), nos ouviu e disse que deveríamos começar a trabalhar cantando. Em 1967 a gente acompanhou o Edu Lobo e a Maria Medalha em Ponteio no Festival da Record, e a música foi vencedora. Por conta disso a gente trabalhou bastante depois. Gravamos alguns compactos, participamos do disco de muita gente e fizemos uma temporada de shows com a Nara Leão. No final de 68 o Ricardo Sá disse que precisaria parar porque iria cair na clandestinidade (ele acabou exilado em Paris trocado pelo embaixador norte-americano seqüestrado).

Nos anos 60 havia uma patrulha musical muito grande com uma briga enorme entre os "nacionalistas" e os "alienados". Como você via esse embate na época?

Eu sempre fui um cara extremamente pessoal e sempre acreditei que a arte é superior a qualquer coisa. Não é possível fazer arte se você estiver preso a ideologias, partidos políticos, igrejas, propostas estéticas ou qualquer outra coisa. O disco do Momento Quatro já é um álbum muito estranho. Porque apesar dele pedir a benção para aquela MPB com a qual a gente trabalhava, ele tinha coisas muito diferentes. O pessoal estranhou, porque achavam que nós éramos parte daquela “tradição”.

Quando o Momento acabou você já foi pro Som Imaginário ou fez algo antes?

Eu fui ser hippie no Rio Grande do Sul com um pessoal muito legal que tinha conhecido na Record. Formamos o grupo GRAU ou Grupo Revolucionário de Arte Livre, como a gente era besta (risos). Nós fizemos também um grupo de rock maravilhoso chamado “Primeira Manifestação da Peste” que não deixou registros.

Como era o som de vocês?

Era um som meio psicodélico de vanguarda.

Logo depois você montou o Som Imaginário. Como você chegou no Wagner Tiso e os outros caras?

Eu voltei pro Rio de Janeiro e conheci o Tavito que já estava definitivamente lá. Na praia nós conhecemos um outro amigo e fomos morar na casa dele. Esse amigo disse que estava preparando um show para o Milton Nascimento. Ele nos juntou ao trio que tocava com o Milton (Wagner Tiso, Luis Alvez e Robertinho Silva). Por último veio o Laudir de Oliveira, que tinha voltado dos Estados Unidos e montamos esse sexteto. A gente estreou na sexta-feira da Paixão de 1970 no show “Milton Nascimento ah, e o Som imaginário”. Logo depois o Laudir voltou pros EUA pra tocar com o Chicago, o Naná Vasconcellos também não ficou muito e finalmente chamamos o (guitarrista) Fredera. Foi quando viramos uma banda mais roqueira.

Algo que chama a atenção no Som Imaginário é que o progressivo sempre foi meio carrancudo e vocês eram bem-humorados.

Sim, sempre. Mas nós tínhamos um lado sério também. Eu acho que a gente era mais psicodélico que progressivo. No disco que gravamos com o Milton tem aquela música “Pai Grande”, que é toda construída em cima de ruídos e barulhos. Essa ousadia foi muito boa, porque como lá tinha gente com todo tipo de pensamento em relação à música, a mistura que saía dali era muito legal.

Você voltou a trabalhar com o Tavito agora. Existe a vontade de retomar algo desse tempo?

Zé Rodrix

Sim, em 2009 nós vamos fazer um projeto chamado Um Som Imaginário, onde a gente pretende recuperar o sabor e o jeito de compor que a gente tinha nos anos 70.

Mais ou menos nessa época é que você compôs Casa no Campo com ele. Como rolou a gravação da Elis?

Eu coloquei a música no Festival de Juíz de Fora, ela ganhou e um dos prêmios era o direito de defender a música no Festival internacional da Canção daquele ano. No sábado a tarde quando eu acabei o ensaio, ela me segurou pelo braço e disse que iria gravar aquela música. Ela gravou também outra minha chamada “Olhos Abertos”. O engraçado é que sempre que a gente se encontrava ela dizia: “Põ, manda umas fitas pra mim”, e eu não ia atrás dela de vergonha. Eu deveria ter ido.

Para você qual é o maior legado do Sá, Rodrix e Guarabyra

De uma certa forma nós abrimos uma porta muito interessante. O rock brasileiro já estava mais liberado naquela época, mas era aquela coisa de “a gente pode usar rock 'n' roll, mas é um rock mpb viu gente, não é Jovem Guarda”. E a gente pegou essa música urbana e misturamos com coisas que na época eram consideradas lixo, como o baião ou a música do nordeste. Muito por conta do manifesto CPC da UNE que dizia que tanto a arte burguesa quanto a popular eram alienadas. Quando a gente misturou isso, o que foram chamar de “rock rural”, abrimos portas para muitos que vieram depois como o “Pessoal do Ceará” (Belchior, Ednardo, Fagner...).
Seu terceiro disco solo Soy Latino Americano é o seu maior sucesso. Fale dele um pouco
Eu estava há dois anos sem gravar. Nesse tempo eu fui ser diretor musical e ator do Rock Horror Show. Aí a gravadora falou que estava na hora de lançar um disco novamente. O Soy Latino foi feito intencionalmente para mostrar como é que se faz um disco falando o que se quer falar de forma que ele possa ser consumido popularmente.

Da onde veio a influência latina e caribenha?

Zé Rodrix

Eu tinha muita paixão por mambo, rumba e toda aquela mística rítmica de Cuba. Era um gosto antigo vindo desde a minha infância, na época em que a música cubana era da maior importância no Brasil. Então eu resolvi experimentar essa linguagem. No Soy Latino Americano um pouco e depois de forma mais bem realizada no Quando Será, meu disco de 1977, que pra mim é o meu melhor disco.

Nos anos 80 e 90 você compôs mais para teatro e tirando os dois discos com o Joelho de Porco pouca coisa foi lançada. Esse sumiço foi espontâneo ou foi forçado por uma situação de mercado?

Em 80 eu fui para RCA, onde fiz um compacto e um LP. Mas eu já estava muito desgastado com a minha carreira. Porque o mercado de música tinha se profissionalizado a um ponto onde começou a haver cada vez menos espaço para a criação e cada vez mais para as tais “fórmulas de sucesso”. Eu digo que a idéia de que um artista pra fazer sucesso tem que vender um milhão de cópias começa na essa época, de 76 pra cá, com a discoteca. Quando chegou em 80 essa idéia já tava bombando. Eu já estava desgastado com isso e com uma série de outras coisas. Até que em 19 de janeiro de 1982 a Elis morre. Nesse dia eu disse: “Parei, chega”.

Os seus discos vendiam bem?

Eles chegaram a vender muito bem. O Soy Latino Americano foi o primeiro disco brasileiro a derrubar o Roberto Carlos em dezembro por exemplo.

Quando você começou na publicidade?

Em 78 a gente montou a estrutura em São Paulo. Eu e o Tico Terpins. Em 82 eu disse que estava a disposição e que ia ficar direto lá. E fiquei até o ano 2000. Nesse tempo a única coisa que fizemos foram as “Joelhadas” (dois discos e alguns shows com o Joelho de Porco), mas tudo era chamariz pro nosso trabalho na publicidade.

E a sua relação com a internet? Como é?

Hoje em dia minha grande ferramenta de pesquisa é a internet, para tudo.

Inclusive para música?

Música eu busco quando preciso de alguma coisa em específico. Por exemplo, o bis desse show é uma composição minha com o Miguel Paiva chamada “O Rock do Planalto” da qual só existia uma gravação quase que caseira e eu não me lembrava direito como ela era. Eu perguntei se alguém tinha a música (na comunidade dedicada a ele no Orkut) e em minutos eu fui soterrado por várias versões dela...


Leandro Saueia: Vaga-lume - 24 de Abril 2008

Fotos e entrevista completa em:
http://vagalume.uol.com.br/especiais/entrevista-ze-rodrix.html

domingo, 2 de março de 2008

Som Imaginário


Som Imaginário, Tavito à frente.

Banda de rock progressivo formada no início dos anos de 1970 no Rio de Janeiro por músicos mineiros, cariocas e até pernambucanos ( como Naná Vasconcellos numa formação posterior).
A Odeon deu toda a liberdade criativa - e seria um prejuízo se não fizesse isso. Cada instrumento ia para um lado, mostrando as habilidades de cada um dos músicos, num resultado harmônico totalmente vanguardista. E os integrantes… eram daquele jeito: cabeludos, doidões, hippies, pregavam a paz e o amor livre, acreditavam em um mundo melhor.

Tavito e Zé Rodrix relembram a época:
No começo da década de 70, moravam juntos, em uma espécie de comunidade com o guitarrista Marco Antônio Araújo. O trio constituía a “Família Matadouro”, devido à enorme quantidade de mocinhas arrebatadas por eles. Funcionavam como um relógio: os músicos dormiam das 6h às 10h da manhã, iam à praia, em Copacabana; voltavam da praia, normalmente com uma garota, e dormiam até as 18h. Acordavam, tomavam banho e iam para os shows, e depois seguiam para o Sachinhas, de onde só saíam às 6h da manhã. Em casa, só andavam nus. Para ter algum controle, penduravam avisos como “nesta cama é proibido trepar”. Às vezes, doidões, passavam o dia todo desenhando. E sempre esqueciam de pagar a conta de luz. Um dia, tomaram um ácido e a luz foi cortada; acenderam um lampião e ficou a família toda viajando ao som de The Band. Em outra ocasião, foram fazer turnê em BH por uma semana. Na volta, quando eles chegaram no hall do apartamento, deram de cara com uma desagradável surpresa. “Quando a gente olha, tinha vermes saindo pela porta. Uma trilha que ia até a geladeira. Tinha acabado a luz e na geladeira apodreceu bife, carne”, lembra Zé Rodrix.


Zé Rodrix no curta Nova Estrela, de José Adler

Em 1970, gravou seu primeiro disco, "Som Imaginário", destacando-se canções como "Feira moderna" (Beto Guedes e Fernando Brant) e "Hey man" (Zé Rodrix e Tavito).Ainda nesse ano, participou da gravação do disco "Milton", de Milton Nascimento.
No letreiro do teatro o nome do show era "Milton Nascimento, ah, e o Som Imaginário". O show estreou no Teatro Opinião (RJ), seguindo para o Teatro da Praia (RJ). Nessa ocasião, Laudir de Oliveira desligou-se do conjunto, sendo substituído na percussão por Naná Vasconcelos. O espetáculo seguiu para a Boate Sucata (RJ), com a participação de Frederiko na guitarra solo, e depois para o Teatro Gazeta (SP), sem a participação de Naná.
Robertinho Silva e Gal Costa


(foto acervo Robertinho Silva)

Em 1971 o conjunto lançou o LP "Som Imaginário", que incluiu "Ascenso" (Frederiko e Fernando Brant), "Cenouras" (Frederiko), "Nova estrela" (Wagner Tiso) entre outras pérolas. Ainda em 1971, acompanhou Gal Costa em show realizado pela cantora no Teatro Opinião (RJ), tendo novamente Naná Vasconcelos na percussão. Participou, ainda neste ano, do filme "Nova estrela". Ainda nesse ano Zé Rodrix se desligaria do grupo. Elis Regina gravaria no mesmo ano “Casa no campo” imortal composição do Zé e Tavito.


O Som Imaginário chegou a tocar na Globo, no programa Som Livre Exportação e acompanhou Gal Costa, que já era diva. E, no underground, viveram o desbunde carioca em sua melhor forma - conviveram com outras bandas vanguardistas da época, como o Módulo 1000, e tocaram no Festival de Guarapari, o famigerado Woodstock brasileiro.



Som Imaginário no Programa Som Livre Exportação
(Zé à esquerda e Tavito à direita)

Em 1973, gravou o LP "Matança do porco", que pra muitos é o álbum mais progressivo do grupo, contendo canções de Wagner Tiso como, "Armina" e a faixa-título, escrita originalmente para o filme "Os deuses e os mortos", de Ruy Guerra, que concorreu ao Festival de Berlim dois anos antes. Também em 1973, participou do LP "Milagre dos peixes", com Milton Nascimento, apresentado, no ano seguinte, em espetáculo gravado ao vivo e lançado em disco.

Pelo grupo passaram alguns gênios da música nacional, Wagner Tiso nos teclados; Luís Alves no baixo; Robertinho Silva na bateria; Tavito no violão; Frederyko (Fredera) na guitarra; Zé Rodrix nos teclados, voz e flauta; Laudir de Oliveira na percussão; Naná Vasconcelos na percussão; Nivaldo Ornelas no saxofone; Toninho Horta na guitarra; Noveli no baixo; Paulo Braga na bateria.

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Entrevista do Zé e do Tavito dada ao blog psicodeliabrasileira.wordpress.com





Para ouvir Hey Man! ( Zé Rodrix/Tavito) c/ o Som Imaginário